No Início do Ano…

“Jerusalém’ é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”
José Saramago- no discurso de atribuição do Prémio ao romance “Jerusalém”,

Gonçalo M. Tavares é o mais notável escritor da minha geração. Quando estive com ele numa tertúlia literária falou-nos sobre a sua “arca”, que para mim é mais um congelador, porque as obras depois de escritas são depositadas e apenas passado um ano são revistas e então se tiverem qualidade passa-se a uma outra fase – a de depuração da escrita.
Como eu gostava de fazer isto nestes modestos artigos do Turismo de Portugal ou mesmo por vezes, em alguns acontecimentos da minha vida.
Fica aqui um cheirinho da genialidade do Gonçalo.

Um Sucessão de Pátios...

No Inicio do ano…
«No início do ano, uma donzela do Ocidente diz ao seu amado esposo:
– Não caminhes em direcção ao Leste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o amado nada ouviu, pois, nesse momento, pensava numa outra mulher, numa mulher mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Seguiu assim o homem em direcção a leste – e não morreu. Pelo contrário, foi recebido em casa pela tal amante mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, a amante disse-lhe:
– Não caminhes em direcção ao Oeste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o homem nada ouviu, pois, nesse momento, pensava na sua esposa legítima que o esperava.
Seguiu assim o homem em direcção a oeste – e não morreu. Pelo contrário, foi recebido em casa, com alegria e calor, pela sua esposa.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, ouviu da sua amada esposa, uma donzela do Ocidente:
– Não caminhes em direcção ao Leste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o amado nada ouviu, pois, nesse momento, pensava numa outra mulher, numa mulher mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Seguiu assim o homem em direcção a leste e depois a oeste e depois a leste e assim sucessivamente, dias e dias, meses e meses, anos e anos – e não morreu.
A morte surgiu apenas quando o homem já velho e sem forças ficou incapaz de se mover – quer para leste quer para oeste.»
Gonçalo M. Tavares

[Texto publicado na revista Visão n.º 879

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