Cerro da Nossa Senhora da Candosa em Vila Nova de Ceira (Góis) (*)

4 Razões para visitar o Cerro da Nossa Senhora da Candosa (Góis)

1-Por se tratar de um canhão fluvial associado a um fenómeno geológico que tem a designação de epigenia (ler mais adiante o seu significado)

2- É um geomonumento  de grande beleza

3- Porque  é um ótimo local para namorar

4- Porque aqui se conta uma bela de lenda de um cristão reconvertido em que os mouros perdem perante a teimosia -enfim mitos com muito significado!

As fragas quartzíticas da Nossa Senhora da Candosa, em Vila Nova de Ceira (Góis), onde se ergue uma capelinha, são um espectáculo magnífico. O rio Ceira corre aqui cerceado num pequeno canhão a 150 metros de profundidade.
Um dos aspectos marcantes na Cordilheira Central xistosa, é a presença de cristas quartzíticas que se destacam na paisagem, já por si montanhosa. Resultam fundamentalmente de erosão diferencial (esta rocha é muito mais dura do que a rocha encaixante, normalmente o xisto) mas também a forças tectónicas.
As fragas quartzíticas da Nossa Senhora da Candosa, fazem parte da crista que atravessa toda esta região e que se estende entre os Penedos de Góis (*) e a Serra do Buçaco (***).
Por vezes as cristas quartzíticas, no território português, são atravessadas por rios: são exemplos notáveis esta Nossa Senhora da Candosa e a as Portas do Ródão (**) no rio Tejo, mas estes fenómenos muitas vezes são explicados por aquilo que os geomorfólogos chamam de epigenia.

Mas o que é uma epigenia pergunta o amigo leitor? É o seguinte, ocorre quando um rio iniciou a sua ação de erosão em formações sedimentares mais recentes facilmente erodíveis, mas que, ao atingir formações subjacentes, mais antigas e mais duras, os quartzitos que aqui afloram, continuou a erodi-las e a encaixar-se nas mesmas.
Em Portugal associados a epigenias ou não existem alguns canhões fluviais que cortam a prumo originando cenários naturais espetaculares, rochas quartzíticas, lembramo-nos de repente, para além da nossa Senhora da Candosa dos seguintes canhões fluviais:
-Portas de Rodão no rio Tejo (Vila Velha de Rodão-Nisa) (***)
-Portas de Almourão no rio Ocreza (Foz do Cobrão-Vila Velha de Rodão) (*)
-Garganta do Zêzere (Malhada Velha) (Oleiros)
-Garganta da Ribeira da Pena (na aldeia de xisto da Pena) (Góis)
-Calçada de Alpajares na Ribeira do Mosteiro (Torre de Moncorvo) (***)

 Nossa Senhora da Candosa é um geomonumento magnífico

Nossa Senhora da Candosa em Vila Nova de Ceira

O mar esteve na Nossa Senhora da Candosa à 440 milhões de anos (Ordovícico)
Os quartzitos são rochas muito duras, que foram formadas por areias ricas em quartzo, que se depositaram num mar pouco profundo em camadas paralelas e quase horizontais. Este mar situava-se na margem do supercontinente Gondwana, próximo do Pólo Sul. Registe-se que nesse tempo os continentes estavam desprovidos de vida que apenas pululava nos oceanos. Posteriormente os arenitos foram sujeitos a altas pressões e temperaturas sendo transformadas nestas rochas metamórficas-os quartzitos. Mais tarde as forças feéricas do interior da Terra vieram dobrar e a inclinar estas rochas.
Mas deixemos agora a Geologia, porque o leitor já começa a ficar entediado, viremo-nos então para as lendas, porque quase todos estes locais notáveis naturais as têm.

Cerro da Nossa Senhora da Candosa (Vila Nova de Ceira) 

 
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O Mouro e a lenda da Nossa Senhora da Candosa
Existia um mouro convertido ao culto cristão que pescava e apanhava castanhas a montante desta maravilha natural, este tinha uma boa vida que causava cobiça e inveja a outros mouros não convertidos…
Então para o expulsar, os mouros inimigos tentaram construir uma muralha para fechar o rio e assim o afogar; no entanto a parede construída com tanto esforço durante o dia, aparecia desfeita ao amanhecer. E várias vezes isto aconteceu.
Um dia, o mouro que dirigia os trabalhos sonhou com uma Nossa Senhora com um capuz na cabeça e uma candeia na mão, que montada num jumento, passava sobre as pedras e as derrubava nos abismos desmanchando a sua intrincada obra. Foi então que acordou e correu para as fragas e viu a “Maria do Capucho”, mas não conseguiu alcançá-la. Compreendeu que se tratava então de um mensagem divina e renunciando a sua obra, bem como os restantes mouros, converteram-se ao cristianismo. Lá existe num nicho uma tosca Nossa Senhora, que temos dificuldade em discernir o estilo e também se diz que as pegadas do casco do burro, gravadas na pedra, estão, ainda hoje na Nossa Senhora da Candosa.
Actualmente no Cerro da Candosa, o povo de Góis vai adorar a Virgem, invocando-a com o nome de Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora da Candosa, com festa tradicional a 15 de Agosto. O certo é que a lenda trata de forma inequívoca a transição religiosa, sempre dorida de um credo religioso para o outro e sempre narrado pelo culto vencedor.
A capela é recente e aqui os nossos displicentes olhos não encontram qualquer vestígio da ancestralidade do lugar: capela anterior, fortaleza ou mesmo uma povoação, para defesa daquele vale majestoso.

Também em toda a região se diz aos meninos de Vila Nova de Ceira, que estes vieram da senhora da Candosa, o que não é de todo desacertado, porque pelo menos alguns foram lá feitos. Ainda hoje é um ótimo espaço para namorar ao som da água e dos passarinhos.
Este quartzito Ordovícico, esta água rumorosa que corta a prumo este imponente fraguedo escultórico, porque “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”, estas escarpas revestidas de urze, esteva e giesta e o idílico Vale do Ceira fazem da Senhora da Candosa, um geomonumento, que é uma referência geográfica, religiosa, cénica e namoradeira em toda a região.

A melhor surpresa está ainda reservada, para quem diz que já conhece tudo, bastando para tal ir ao miradouro da Nossa Senhora da Candosa, pois se descer ao nível do rio ira achar um cenário grandioso, com o rio Ceira, em canhão, a esventrar entre dois imponentes fraguedos. Se a jusante a flora é pobre, a montante do geomonumento, esta já tem por algumas dezenas de metros a sua vegetação ripícola normalizada.

As paredes quartzíticas verticalizadas são muito procuradas para a realização de atividades de ar livre, designadamente, escalada, rappel e acampamentos selvagens.

Realça-se ainda a existência de túnel que ainda chegou a ser aberto para a passagem do caminho-de-ferro que, como é sabido, deveria ter ido até Arganil. O que não sucedeu. O próprio caminho em terra para a garganta do Cabril era o que estava previsto para a instalação da linha.

Aqui o rio Ceira, em apertos, apesar de fundo é ótimo para tomar banho e é uma experiência sensorial única atravessar o canhão fluvial olhando para a imponência dos Penedos da Senhora da Candosa que nos mitigam e nos fazem restringir a nossa verdadeira importância.
“O Cabril do rio Ceira, onde este rio corta a barra quartzítica que prolonga a serra do Buçaco, vendo-se que atravessou toda a espessura dos depósitos que afloram na proximidade, até serrar as bancadas de rocha dura, é certamente uma das epigenias mais demonstrativas do mundo. Extraído de : Excursão à Estremadura e Portugal Central”.
-Orlando Ribeiro. “Finisterra. Revista Portuguesa de
Geografia”. Lisboa, vol.3, nº 6 (1968), p.283-287.


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Um comentário Cerro da Nossa Senhora da Candosa em Vila Nova de Ceira (Góis) (*)

  1. G. says:

    Olá Castelinha
    Já lá vai tanto tempo.
    E eu faço parte destes 12 Meus Amores? Vês que não me esqueci quem é o teu antepassado! Hoje nem vou dormir a pensar nisto…
    Pelo menos, no dia em que visitamos a Senhora da Candosa, parecia, porque nem ouvimos a explicação do Proença…
    O que é feito do futuro ex-geólogo mais notável da nossa geração e ainda por cima sempre bem disposto e humano e que pelos vistos mantém a cultura infinita, mas em relação aos calhaus já deve estar muito fora de moda.
    Sentimos todos a aqui a tua falta, vem visitar-nos e depois quem sabe trabalhar connosco…que nós pagamos-te muito mal mas olha que eu ainda estou melhor do que aquilo que era antes e neste tempo já era a mais gira da Faculdade de Ciências. Bons posts.
    G.

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