Núcleo da Penascosa -Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

No Parque Arqueológico do Vale do Côa pode visitar:

-Núcleo de Arte Rupestre da Penascosa (qu está em destaque neste artigo):

- Núcleo de Arte Rupestre da Canada do Inferno

-Núcleo de Arte Rupestre da RiBeira dos Piscos

-Museu do Côa

-A paisagem magnífica de toda a região.

Visitar as gravuras rupestres do núcleo arqueológico da Penascosa do Parque Arqueológico do Vale do Côa, no concelho de Vila Nova de Foz Côa ao luar é um momento singular. Envolvidos por brisa deleitosa, sentindo o murmúrio da rio a correr em leito xistoso em bela praia fluvial, com aquele coaxar de rãs insuperável…
Quando se acendeu a iluminação artificial do primeiro painel da Penascosa, ouviram-se fragores de estupefacção; o que se viu adquiriu uma transcendência encantatória e compreendemos de imediato a importância daquele santuário ao ar livre.
Como diz Martinho Baptista, director do Centro Nacional de Arte Rupestre (CNART), “…à noite, com a incidência da luz rasante, até as figuras saltam das pedras…”, porque é então que todas as subtilezas da rocha e da gravura adquirem forma e textura.
Sente-se um ambiente ambíguo, entre o alquímico e o científico, porque estamos a descortinar a aurora artística e religiosa da humanidade, quando esta dá os seus primeiros passos para se afastar da bestialidade do nosso parente Neandertal.
As questões surgiam em catapultas impulsionadas pelo meu irmão em estado de lucubração forçada: por que razão as gravuras eram sobrepostas deixando o resto do painel vago? Qual o motivo destes homens? Porque se repetem sempre os mesmos animais (cabras montesas, auroques e cavalos), escasseando os peixes, as aves e os felinos? …

Penascosa-Parque Arqueológico do Vale do Côa

A nossa amiga Emer (arqueóloga e irlandesa, especializada em cultos druídicos) defendia que devemos deixar tudo ao sabor da nossa imaginação. O meu espírito científico rebatia que não! Num próximo post prometemos que explicaremos algumas das teorias mais verosímeis do vale do Côa. A algaraviada tornou-se grata e fraterna, com o guia, com grande profissionalismo e mérito, a tentar por alguma ordem na expressividade efabulatória, dos quatro viajantes ao mundo paleolítico
A luz iluminou subitamente um palimpseto com 14 figuras, todas elas maravilhosamente gravadas. Este painel é dos mais conhecidos, mas de noite, ao luar, a nitidez é tal que nos faltariam sempre palavras para descrever esta maravilha artística provinda dos confins da Humanidade. Ficou-me na retina, a visão de um dos auroques do topo, cuja cabeça original se perdeu provavelmente por fractura da rocha, o animal foi posteriormente “corrigido” com uma cabeça a olhar para trás.
Noutro painel, encontramos um registo semelhante ao anterior, mas escavou-se na base do afloramento em aluvião e encontrou-se um verdadeiro coito animado: uma égua e um cavalo a acasalarem, mostrando este a cabeça em três posições diferentes e as patas dianteiras em duas posições, simulando assim movimento. A égua, mais antiga está perfeitinha e o corcel nem por isso. Na mesma rocha, outra raríssima representação de cabra a olhar de frente, técnica que só foi empregue no final do Paleolítico Superior.
Noutra rocha um equídeo à escala natural e um peixe, este aproveitando uma convexidade da própria rocha, para dar a sensação de volume: tudo é maravilhosamente nítido, a boca, os olhos, as guelras, as barbatanas…e até o imaginei (truta?) a saltitar na água.

Peixe Penascosa Parque Arqueológico Vale do Côa

Peixe Penascosa Parque Arqueológico Vale do Côa

Aqui estamos em presença de outro exemplo curioso em que numa rocha grande com imenso espaço vago as figuras foram sobrepostas umas às outras, no topo do painel, como se aquela fosse a zona por excelência para marcar as figuras.[nggallery id=3]
Perante o espectáculo fazíamos por vezes um enorme ruído de exaltação, entrecortados por momentos de profundo silêncio, respeitador, do momento inolvidável porque estávamos a passar; tentava então ajeitar a máquina fotográfica no solo, num ponto mais sobrelevado, para tentar captar digitalmente a perpetuidade demiurga daquelas figuras (recomendo aos leitores que levem um tripé, para não sofrerem as minhas agruras).
Não posso esquecer que de dia a experiência também é excelente; aprofundamos para além da impressão da hidrolatria, também a da litoratia e de biolatria, do rio Côa e pode também ficar a conhecer a paisagem de Castelo Melhor-miradouro de São Gabriel (*); que em Fevereiro é o mais belo espectáculo de amendoeiras em flor no nosso país; mas quem observa as gravuras à claridade do sol, apenas fica com uma pálida imagem da sonata paleolítica ao luar…e ao gerador (quando este funciona).
Outras notas acerca do núcleo arqueológico da Penascosa
De dia visitei o núcleo da Penascosa por duas vezes, a última no dia dos meus anos em 2006, guiado pela loquaz e alegre Ângela, partindo do núcleo de Castelo Melhor, observamos ao longe a grandiosa Quinta da Erva Moira (pela sua beleza, os seus achados, musealização arqueológica e pelos seus divinos néctares). Por razões de segurança, o único ponto visitável durante a noite, são as diversas gravuras nas rochas do núcleo arqueológico da Penascosa. Terá que marcar a visita com antecedência, porque apenas se realiza ao luar e em boas condições climatéricas e não se esqueça do repelente de insectos.


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Um comentário Núcleo da Penascosa -Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

  1. Jessi says:

    Arte no seu estado mais puro
    Vila Nova de Foz Coa, um paraíso perdido, caído no esquecimento. Os primeiros passos dos nossos antepassados ancestrais…
    Eu pessoalmente adoro esse lugar que nos faz retroceder milhares e milhares de anos e nos faz imaginar como seria os nossos dias se fizéssemos parte dessa época.
    Eu fiz todas as visitas abertas ao publico incluindo a visita nocturna que é realmente extraordinária, alias tudo é fantástico, a paisagem o meio envolvente, tudo é tão mágico…Tanto eu como o meu marido apaixonamos nos por aquelas Terras.
    É bom saber que ainda existem pessoas como você que se interessa por este património, e agradeço-lhe pelo seu site que está muitíssimo bem estruturado. Muitas felicidades!

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