Núcleo de gravuras rupestres da Ribeira de Piscos-Parque Arqueológico do Vale do Côa (Património Mundial da Humanidade) (Vila Nova de Foz Côa) (****)

Depois do primeiro artigo sobra o Núcleo da Canada do Inferno (**), segue-se o extraordinário núcleo da Ribeira dos Piscos (****), não apenas pelo valor arqueológico, mas também pela paisagem excepcional, principalmente na épocas das “amendoeiras em flor” ou na Primavera.
Primeiro viajamos em “todo o terreno”, e depois a pé, por entre uma paisagem de sonho; o núcleo da Ribeira dos Piscos é em si uma experiência inolvidável a aurora da humanidade.
A primeira vez que visitamos o núcleo foi em companhia de estudantes de arqueologia da nossa cidade de Coimbra, em que nós seriamos cicerones para a geologia da região e com a nossa guia do Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****), experimentada e loquaz, douta em plantas locais, estabeleceu-se um diálogo profícuo. Se as dúvidas, ao “Como” e “Quando”, estão mais ou menos respondidas, os “Porquês” ficam ao sabor da ciência especulativa e do sonho.

Ribeira dos Piscos é um dos mais belos núcleos da Arqueologia Portuguesa

Ribeira dos Piscos

Os núcleos encontram-se na da foz da ribeira dos Piscos, na margem esquerda (linha de água tectónica associada a montante a mega fractura da Vilariça). A caminhada é primorosa, rodeados que estamos, por um caleidoscópio colorido de flores silvestres de aromas francos e subtis.
Numa das rochas é possível descortinar os mais bem desenhados animais de todo o complexo: uns cavalos executados em filiforme com grande pormenor (notam-se os olhos, a crina, os cascos) e uma maravilhosa noção de perspectiva, mostrando muito bem posicionadas e proporcionadas todas as patas.
O Homem de Piscos e seu gigante falo
Noutro painel observamos, uma raríssima representação paleolítica de uma figura antropomórfica, a do “Homem de Piscos” (no mundo inteiro deve haver no máximo uma dezena). Gravado e revestido pela técnica filiforme, com 63 cm de altura e 22 cm de largura, com cerca de 10000 a.C.,  com crânio de nuca saliente, boca aberta extasiada e um sexo desmesurado em ejaculação. A relembrar aos vindouros que a sexualidade é uma necessidade vital prazenteiro, um acto transcendental, sendo em algumas sociedades também um acto religioso. O que desejaria o nosso coevo artista comunicar?
O “Homem de Piscos” sobrepõe-se a várias figuras (cavalo e auroques).


A “sensualidade” paleolítica prossegue com a observação em outro painel de uma das mais belas e conhecidas representações até agora encontradas: são dois equídeos a namorarem, acariciando-se com os focinhos, figuras que aproveitam uma zona mais bojuda da rocha para darem uma sensação de volume.


Já no extenso lençol de água calmo do rio Côa, a 6Km da sua foz, e depois de passarmos por um moinho parcialmente submerso e arruinado, encontramos três grandes auroques com dois metros. A sua gravação exigiu a construção de andaimes, e a sua grande dimensão sugere que foram feitos para serem vistos de longe, reforçando a teoria dos painéis como sinalizadores de fronteiras ou marcadores territoriais.  
A conversa continuo interessante, o que é de todo lógico, com a cicerone, de nome Helena Garrido; habituado como estávamos a olhar para as rochas, descortinei uma pequena figura pintada a ocre; tratava-se de um orante Neolítico. Segundo a Helena esta figura já está catalogada e muitas mais existem distribuídas neste sector. A história deste vale não terminou no Paleolítico…


Á volta, paramos na ruinosa Quinta das Olgas, mas ainda com boa cantaria. Peço para parar a viatura para colher uma fotografia. É mais um momento que guardo na memória porque a vida tem momentos muito belos.

Créditos fotográficos: As fotografias são do ótpimo blog de fotografia arqueológica do Ricardo Soares.

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