Os Meus Amores

E deste modo percebi o tema constante de quase todos os filmes de Ingmar Bergman, tantos vi, alguns repetidamente, sempre fascinado e emotivo, com o segredo que neles estava contido. E agora deste modo percebi que se formos espectadores da nossa própria vida, furtamo-nos ao nosso sofrimento evitável e as suas ramificações profundas que tem sempre na sua origem- O Coleccionismo do AMOR.

Bastou sentir o frio polar a chegar de mansinho, hoje (12 de Fevereiro de 2010) nesta ponte sobre o rio Ceira que desliza remansomente com os passarinhos a chilrear (estamos no Inverno-mas o texto parece-me mais aprazível assim), ontem no jantar e coadjuvado pela visita de tarde ao túmulo de Luís da Silveira em prece, na igreja matriz de Góis, com o seu elmo e as luvas de combate pousadas, para entender que aquilo que praticamos toda a vida é tentar acrescentar o mais possível o número de pessoas que nos podem amar; por isso nos embelezamos, namoramos, casamos, temos filhos, divorciamo-nos, conquistamos países, criamos a noção de Deus (mas para este existem mais razões para nele crer) e por vezes morremos e eu…tornei-me amoroso. Qual é a singular explicação científica para este facto tão humano?

Somos mais Ulisses que Quixote.

Quantas pessoas é que vos efectivamente amaram? Não estou aqui a referir-me a fragilidade da expressão “gosto de ti” e muito menos em relação à fugaz “amizade”, escrevo sobre o amor total e absoluto! Eu que sou um cachopo com sorte, conto no meu regaço não mais de uma dúzia (entre mortos, pais, tias, namoradas e outras actuais viventes) e talvez duas destas sejam uma mera miragem (quando elas lerem já sabem a quem me refiro).

Ao relembrar o percurso do Homem colectivo e individual ao longo da história, assedia-nos um sentido de perda e desta maneira os nossos Amores vão variando 1,2,3,4,5, 6,5,4,3,2,1,0 e todas as nossas acções, para além da nossa sobrevivência material, são a de aumentar e preservar este número mágico e isto leitor, cansado desta leitura fastidiosa e habituado ao twiter, é matemática simples de somar e subtrair.

Tentemos manter a nossa escrita cordata, porque caso contrário o meu trisavô ainda salta da sua campa de suicida (e ele que nem sequer gostava do estilo de Eça de Queiroz) e vem para aqui dar-me com o seu cajado de sabugueiro!

E eu não sou um trapalhão, embora saiba que o texto do parágrafo acima vem a despropósito, mas também o que posso fazer se sou adicto em Virgina Woolf, Faulkner e outros quejandos, onde é que eu ia? Já sei! Organizai-vos leitor e fazei um esquema.

O que acontece quando não podemos já alcançar novo amor através da beleza e em menor grau pela personalidade? Eu confesso, que hoje estou triste, mas ainda me restam muitos sorrisos amorosos nos meus bolsinhos- e sempre tenho o amor filial.

E porque hoje soube  que já passei a flor da idade (hoje o meu envelhecimento foi algorítmico) e que não posso ter muitos heterónimos…

Com 0 amores no alforge cada um ilude-se como pode, por exemplo: Quixote aos 50 anos, nos feios e tristonhos campos manchegos, parte a procura da sua inexistente Dulcineia del Toboso; Dorian Gray torna-se num monstro abominável todo fixolas, outros suicidam-se, outros enlouquecem, outros jogam cartas e outros inventam mil e uma idiotices.

Eu já sei o que vou fazer, primeiro que tudo torno-me num Homem fisicamente perfeito para a minha idade (já perdi sete kg em pouco mais de um mês), enriqueço (o que para mim será tão fácil como assoar agora o nariz), torno-me num “quase” monge Budista, encontro um cão como o meu antigo Joly, compro um Ferrari e desapareço para escrever para o www.universonotavel.com, ou então em alternativa escreverei os mais belos romances da Humanidade (tremei amigos Dostoievsky, Cervantes, Homero e companhia limitada); mas como sou e serei modesto, embora sobredotado, simpático e um pinga amores- e  actualmente já me considero feio e anoso- poderei ter sempre uma anciã gaiteira desdentada e entrevada como companheira.

Por um instante esqueci, a canga que tenho sobre mim e ouvimos o bater suave dos nossos corações e sentimos a presunção dos nossos corpos e compreendo a transformação das suas mãos frias que captam indelevelmente o calor das minhas, queríamos que o momento perdurasse e pensei para comigo: isto também é a felicidade e que não podia desejar nada melhor…!

E já se pressentem as sombras irreais da noite e vamos regressar a vida real que conhecemos (chá de hortelã-pimenta quentinho e reunião na escolinha). Aqui de braço dado com a C., muito coitadinho, com a lagriminha ao canto do olho, a tentar esconder a minha tez sombria e ainda bem que tive conjuntivite), escreverei, numa letra inteligível, que temos de retomar a vida no ponto em que a havíamos deixado e apenas por isso estamos menos tristes, mais fortes e em renovação.

Nota final: Caro amigo(a) sei que acabaste de ler este texto com alguma animosidade, não tanto pelo estilo, mas mais pela imodéstia e pelas graçolas desnecessárias, mas que são depurativas da minha alma, por enquanto sombria; mas segue o meu conselho já que chegaste até aqui, por isso descontrai-te, ouve o lamechas Oceano Pacífico, afasta de ti todos os maus pensamentos sobre mim e pensa na minha razão (O Colecionismo do Amor) e se quiseres até podes pensar que sou maluquinho, mas desde que divulgues este site-porque eu assim ganho mais uns troquinhos para comprar o meu Ferrari.

Please follow and like us:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>