Paisagem na E.N. 332 entre Almendra e a sua estação de caminho de ferro (Vila Nova de Foz Côa) (*)

Uma das mais belas estradas para vermos as “Amendoeiras em Flor” é a freguesia de Almendra e a estrada que vai até a sua estação junto ao rio Douro é magnífica. São uns doze km, cheios de motivo de interesse, e que, entre Fevereiro e Outubro, ficarão perpetuados para todo o sempre na nossa memória.
Se em Fevereiro são as radiosas amendoeiras em flor, que nesta região -entre Castelo Melhor e a estação de Almendra- são as mais belas dos País; na primavera verá e sentirá toda uma pluralidade de tons e fragrâncias do coberto vegetal mediterrânico; no Verão, de calor sufocante, e no Outono conhecerá o vinhedo de umas das melhores quintas de vinho do mundo (a Quinta da Leda) e sempre o Douro, rio idílico que é um sonho concretizado numa paisagem assombrosa.
A meio do trajecto transpõe-se, em local aprazível, a ribeira de Aguiar. Junto está uma capela dedicada à Senhora do Campo, outrora centro de romaria importante. Bebamos da sua fonte de água fresca, muito mineralizada (que mereceria um estudo hidrogeológico).
Santo Apolinário e mítica cividade de Calábria
Olhemos para o vulto enorme do monte Callabria, rodeado pelo seu gigantesco vinhedo. Neste topo agora inacessível pela Quinta da Leda, pertencente à Casa Ferreirinha, existem restos de muralhas, que segundo alguns autores, teria sido o berço da cividade de Calábria, sede de bispado no século VII, cujos prelados teriam tomado assento nos concílios de Toledo de 621 a 693, tendo sido local de cunhagem de moeda do reino visigótico. Esta localidade tinha extraordinária importância  no período suevo/visigótico. O seu último bispo, São Zenão, teria sido morto pelos mouros por volta de 717; mas o povo conta a lenda do martírio do Santo Apolinário, prestando-lhe grande devoção do outro lado do Douro, em Urros (*), onde teria ido parar o seu corpo arrastado por touros. Da hipotética Calábria restam apenas vastos troços de largas muralhas de xisto e quartzito de cerca de 2,20 cm de largura, tendo sido referenciados no recinto da cerca muito achados arqueológicos (mosaicos, tijolos, moedas, pedras de construção…).
Nas imediações, têm sido também encontrados vestígios da presença romana como uma lápide funerária latina da capela de Santo Cristo, no sítio da Aldeia Nova, transferida para a capela da mesma invocação em Barca de Alva (*) onde hoje se encontra. Provavelmente nesta época seria um simples castellum.
Na encosta virada ao Douro existem vestígios de exploração de ferro e ouro, provavelmente também da época romana. Estas ruínas são um interessante enigma arqueológico e lendário, que mereceriam ser estudados profundamente e postos ao serviço do turismo nacional. A paisagem que dai se divisa é magnífica (repetimos que o local é actualmente inacessível, até aos intrépidos viajantes). A razão da sua inacessibilidade prende-se com a existência em seu redor da extraordinária Quinta da Leda.
Aqui também se faz o Barca Velha
Comprada em 1979, ano em que começou a plantação da vinha, na actualidade de aproximadamente 85 hectares, com as castas recomendadas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Barroca e Tinto Cão. No ano de 2000 entrou em funcionamento uma nova adega que permite, com modernos sistemas de vinificação, preservar ao máximo os componentes naturais das uvas. O enólogo responsável, José Maria Soares Franco, selecciona e determina para que tipo de vinho será destinado cada lote. Daqui se fazem, por exemplo a Quinta da Leda, o Callabriga e o vinho português de maior nomeada o mítico Barca Velha (este ano de 2006, é o seu ano, com colheita de 1999); A produção total da colheita de 1999 não chegou às 30.000 garrafas. Este Barca Velha foi feito com uvas das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinto Cão. Com este lançamento, passa a existir apenas 15 colheitas declaradas de Barca Velha desde 1952, o que só reforça o estatuto de lenda que o vinho adquiriu. Só tiveram direito à designação de Barca Velha as colheitas de 1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966, 1978, 1981, 1982, 1983, 1985 (executados a partir das castas da Quinta Vale de Meão (*)), 1991, 1995 e, agora, 1999. Esta quinta produz vinhos do Douro de qualidade superior, de grande complexidade e elegância, símbolo de excepção da riqueza e contemporaneidade dos grandes vinhos Douro e cuja quinta, apesar de recente, espanta que não tenha sido inserida no Alto Douro Vinhateiro (*****)- Património Mundial da Humanidade.

Rio Douro- Almendra

A seguir à Quinta sucedem-se nestes locais grandes descampados, onde a vegetação mediterrânica retomou o espaço e onde abundam perdizes, coelhos e lebres, que fogem sobre os rodados das nossas viatura.
E o Douro magnífico; do outro lado, terras de Torre de Moncorvo, em grandioso meandro, agora atapetado de vinhedo e ao fundo a pequena estação de Caminho de ferro desactivada de Almendra- pequena casinha fantasmagórica de meter medo e ao mesmo tempo aconchegada e ternurenta-muito nostálgica de um movimento que hoje não tem. Caminhemos até ao eflúvio, com as suas águas fulgentes e ali fiquemos quedos e sempre mudos a remoer esta paisagem assombrosa.
Olivedos, vinhas, amendoeiras e pombais; Calábria de mitos e mistérios; Quinta da Leda e o Barca Velha; a capela da Senhora do Campo e as suas águas, a ribeira de Aguiar, o Penedo Durão (**), a estação de Almendra e entre todas as atracões o Douro, o rio com o seu silêncio e a beleza cenográfica remetem para o paraíso terreal primaveril; mas, que a semelhança daquilo que acontece no Alentejo, se transforma em inferno escaldante no estio.
Tenho lido muito no interesse das entidades regionais, inclusive do lado castelhana em reactivar toda a linha desde o Pocinho até La Fuente de San Estéban, mas de obras concrecta nada existe no terreno mas ainda temos esperança para que no futuro, este belo troço do rio Douro volte a servir não só a população local, mas como os milhares de turistas que todos os anos visitam dois patrimónios da Unesco da região: o Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****) e o Alto Douro Vinhateiro (*****).
A visita a estação de caminho de ferro de Almendra torna-nos mais panteístas. Apesar da sua lonjura ficamos sempre com vontade de retornar.

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