Parque Arqueológico do Vale do Côa-Artigo do Diário de Notícias, por Maria José Margarido

 “O vale do Côa seria, no Paleolítico Superior, um paraíso na terra, um local com um microclima tão mágico que, por aqui, a Primavera não resistiria a espraiar-se até Setembro – e com ela a época de acasalamento entre animais. O ambiente peace and love levou as gravuras rupestres de Foz Côa a excluir qualquer representação de cenas bélicas entre auroques – antepassados dos actuais bois -, cabras, corços, veados e cavalos, e do homem com estes. Num período datado entre 30 a 10 mil anos atrás, os caçadores-recolectores do vale gravaram quadros solitários ou amorosos do quotidiano numa pedra que não estalou com o degelo dos glaciares da serra da Estrela (****).
A remota tradição pictórica só terminou no ano passado, quando morreu o último artista do Côa. Anónimo como os seus antepassados, só se sabe que era moleiro ou pastor e gostava de desenhar, nestas telas de xisto e granito, o castelo de Guimarães (*) e o comboio a atravessar a ponte.
Estamos na Canada do Inferno (o nome não podia ser menos condicente com o relato anterior), a zona que concentra 90% das gravuras do maior parque arqueológico de arte rupestre ao ar livre do mundo, perto de Vila Nova de Foz Côa e um pouco acima da margem do rio que baptizou a povoação. O caminho para este núcleo de gravuras, apenas um dos três visitáveis, faz-se de jipe, oito pessoas de cada vez. O fantasma da barragem que António Guterres foi convencido a embargar, em 1996, acompanha-nos durante todo o caminho, um fantasma feito de cimento em alguns locais e de marcas improvisadas do nível a que as águas subiriam noutros – e eram mais de 200 metros. “Isto não foi só uma luta pelas gravuras, também foi uma luta pela arqueologia portuguesa”, há-de dizer Helena Garrido, anfitriã deste santuário de 200 metros quadrados há dez anos.
A guia não é formada em Arqueologia mas fez bom uso do curso proporcionado pelo parque e ombreia agora num diálogo mano a mano com um jovem investigador belga, que duvida da tese flower power acerca do vale. “É a interpretação do Centro Nacional de Arte Rupestre, mas, sendo arte, é sempre discutível e subjectiva”, responde num francês perfeito quando o arqueólogo belga, com look à Che Guevara, opina que os dois cavalos que parecem estar a acasalar são sobreposições de diferentes épocas. Na vereda surge um segurança, que olha atentamente para um emigrante português em França, demasiado entusiasmado a apontar com uma cana a figura que conseguiu finalmente decifrar, tocando na pedra de forma audível. Há onze securitas neste parque, a trabalhar 24 horas por dia, para que os onze guias não fiquem sozinhos na defesa das gravuras.

O entusiasmo e anterior frustração deste emigrante na leitura das gravações paleolíticas – feitas através de incisões filiformes, picotagem ou abrasão – é compreensível: para o olho pouco treinado do comum mortal, as representações não são evidentes, com algumas excepções. É preciso ver as fichas de interpretação que Helena estende, dar asas à imaginação e não deixar que os veios naturais da rocha, que correm sempre numa determinada direcção, nos distraiam. Feitos com quartzos e sílicos por estes homens que viviam em tendas, à beira de um rio que começava mais abaixo e com neve no pico do que agora são suaves colinas, os riscos têm uma arbitrariedade estranha na sua firmeza. “Tem a ver com a força aplicada e a superfície mais ou menos afiada do objecto.”Só os invisuais podem agora tocar-lhes, e essas são as visitas que Helena prefere.
Entrar nesta espécie de máquina do tempo, ver as gravuras no local em que foram feitas, é inestimável – mas também tem os seus custos. Está um calor insuportável no vale do Côa. Ao visitante que quer distinguir todos os animais já descritos – e ainda peixes, simples signos de origem oculta e uma rara figuração humana, o Homem de Piscos – pede-se tempo, disponibilidade e resistência a temperaturas que podem chegar aos 55 graus, devido ao microclima próprio da zona. Uma italiana de saltos altos desespera, já duvida dos riscos e começa a derreter a maquilhagem. Helena Garrido revela que já perdeu quatro quilos este Verão. A mulher do emigrante começa a sentir-se mal e tem de se sentar. “Não sabia que o bilhete incluía sauna.”
A queda de 20 mil para 12 mil visitantes em 2005 explica-se por tudo isto: os números nunca poderão ser comparáveis aos de um museu. Talvez por isso a população,os guias, toda a gente aguardem ansiosos pelo cumprimento da promessa da ministra da Cultura: um museu em 2008. Faltam infra-estruturas hoteleiras e acessos, dizem; e a verdade é que quem vem de Torre de Moncorvo, do interior, nem sequer tem placas para o parque e para a vila. A mais antiga forma de arte do mundo sabe compensar, no entanto, quem a aprecia: a turista italiana já esfregou os olhos esborratados e dá gritinhos de alegria quando distingue um veado estilizado, feito apenas de três incisões certeiras, há 30 mil anos atrás. Artigo do DN, por Maria José Margarido (24-8-2006)
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