Parque Arqueológico do Vale do Côa (Vila Nova de Foz Côa) (1ª Parte) (*****)

O rio Côa rio esculpiu uma paisagem natural de rara beleza natural, forte e vigorosa. A localização remota e o clima da região, agreste e seco, salvaram o vale da acção destruidora do Homem e da erosão e conserva uma verdadeira paisagem cultural, polvilhada de vestígios arqueológicos Ao longo de 17 km a partir da sua foz, até Cidadelhe (***), o Parque Arqueológico do Vale do Côa é um santuário de arte rupestre deixado pelos homens do Paleolítico por isso adquiriu estatuto de Monumento Nacional e Património Mundial da Humanidade.
O ano de 2010 foi um marco na evolução do Parque Arqueológico do Vale do Côa porque foi inaugurado o seu museu e as vizinhas gravuras rupestres em Siega Verde, no rio Águeda (Ciudad Rodrigo), foram também classificadas Património Mundial da Humanidade unindo-se assim ao território arqueológico do Côa.


O Parque Arqueológico do Vale do Côa é Património Mundial da Humanidade
Os vários sítios de arte rupestre foram elevados a Monumento Nacional em 1997 e logo no mês seguinte, antes mesmo da sua publicação oficial em Diário de Republica, propostos à UNESCO para classificação como Património Mundial, o que viria a suceder na reunião de Quioto, no Japão no primeiro de Dezembro de 1998, naquele que foi considerado um dos mais expeditos processo de classificação de sempre, consagrando definitivamente o vale do Côa como “a mais importante descoberta arqueológica da Europa nos últimos cinquenta anos”, como tão bem definiu o delegado britânico presente na reunião de Quioto.
A candidatura foi apoiada publicamente pelo director-geral da UNESCO que pessoalmente visitou as gravuras em Junho de 1997 com o Presidente da República e o Rei de Espanha. O ICOMOS propôs a inscrição deste complexo com base nos critérios 1 e 3. O primeiro lembra-nos que datam do Paleolítico Superior as primeiras manifestações de arte da humanidade, e diz concretamente que a arte rupestre do Paleolítico Superior de vale do Côa “é uma ilustração excepcional de súbito desabrochar do génio criador, na aurora do desenvolvimento cultural da Humanidade”; o critério nº 3 diz que esta arte revela, “ de forma realmente extraordinária, a vida social, económica e espiritual do período mais antigo da história do homo sapiens sapiens”.

O silêncio, a imponência geológica xistosa, a biodiversidade mediterrânica e a beleza meândrica do rio contribuem para um ambiente mágico de descoberta.
Descoberta e o processo mediático do Parque Arqueológico do Vale do Côa
Embora o povo local, sobretudo barqueiros e pastores, tivessem há muito conhecimento das gravuras, a sua descoberta pública só se viria a concretizar em 1994.
Tudo começou em 1989, quando a EDP decidiu fazer uma barragem no Côa. Entre os obrigatórios estudos de Impacte Ambiental, logo nesse ano o arqueólogo Francisco Sande Lemos identificou as primeiras gravuras rupestres, e delas avisou o IPPAR e a EDP, embora num estudo superficial que não mencionava o Paleolítico. Segue-se a avaliação dos relatórios, que recomendavam estudos aprofundados. Em 1993, a EDP, contrata o arqueólogo Nelson Rebanda do IPPAR (que ainda estudante em 1981 descobriu o célebre Cavalo de Mazouco (*) no vale do Douro, que já com as obras a decorrer fez prospecções no local e descobre quatro abrigos de pinturas pré-históricas e, na Canada do Inferno, diversos testemunhos de arte rupestre do Paleolítico.
O IPPAR, revelando total incompetência e insensibilidade, manteve secreta a descoberta para não provocar uma guerrilha com o governo, e colaborou na ocultação do achado à comunidade científica, contrariando as suas atribuições estatuárias de divulgação e preservação.
Durante os anos em que se manteve o achado oculto, as obras da barragem prosseguiram a ritmo acelerado, almejando uma situação de facto consumado que só uma forte vontade política conseguiu parar.
No Outono de 1994, o arqueólogo leva ao local uma colega, Mila Simões de Abreu, e a polémica estala, porque esta denunciou a lei de silêncio imposta. Em Novembro de 1994, nos meios de comunicação social a descoberta foi tornada pública, e nessa altura já a barragem ia em adiantado estado de construção.
Conheciam-se então 4 ou 5 painéis na Canada do Inferno; mas ao virar do ano e até Fevereiro de 1995, assistiu-se a explosão de descobertas, quer por arqueólogos quer por habitantes locais. Em Abril de 1995, já se tinha praticamente chegado à extensão actual dos achados, com mais de 17 quilómetros abrangendo o vale do Côa e seus afluentes, desde um pouco a montante da foz do Côa, até à Faia em Cidadelhe (***), no extremo sul. E desses 17 quilómetros, quinze seriam inundados pela albufeira que ali iria nascer em 1998, se fosse para a frente a opção da barragem.
Após a denúncia pública, seguiu-se uma apaixonante polémica (gravura ou barragem?), nacional e internacional, com fortes defensores dos dois lados (colocando-me eu na defesa das gravuras). E porque “as gravuras não sabem nadar”, a mudança de governo em Outubro de 1995 veio terminar com esta questão, decidindo logo no mês seguinte a suspensão das obras da barragem, apesar do enorme prejuízo económico imediato que tal decisão acarretou. O nosso bem-haja aos decisores políticos responsáveis pela salvação das gravuras.


O ano de 2010 foi um marco na evolução do Parque Arqueológico do Vale do Côa porque foi inaugurado o seu museu e as vizinhas gravuras rupestres em Siega Verde, no rio Águeda (Ciudad Rodrigo), foram também classificadas Património Mundial da Humanidade unindo-se assim ao território arqueológico do Côa (Continua).

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