Pelourinho e Verraco na Torre de Dona Chama (Mirandela) (*)-A cultura dos Berrões

Temos andado escrever sobre os locais notáveis de Trás-os-Montes, porque entendo que devemos difundir todo o nosso Património Notável e a escolha para nós é quase indiferente, tanto podemos escrever sobre o Mosteiro da Batalha (*****) como acerca do Pelourinho da Torre de Dona Chama, embora saiba que com este terei menor tráfego, mas paremos com mais delongas porque a nossa escolha está associada a solidez ética deste Portugal Notável e na defesa intransigente do turismo cultural.

O que são Berrões?

Anteriormente escrevemos sobre dois locais notáveis que tinham Berrões (verracos) e ambos no distrito da Guarda:

Santo André das Arribas (*) (Figueira de Castelo Rodrigo),

Aldeia Histórica de Castelo Mendo (**) (Almeida).

Com o nome popular de Berrões ou Verracos, são esculturas em pedra (quase sempre em granito) da Idade do Ferro ou mesmo já da época romana que representam, porcos, javalis, touros e ursos.
Das cerca de 400 esculturas conhecidas, as figuras mais frequentes são as de porcos machos. O vocábulo berrão foi inspirado no termo usado para designar os porcos não castrados. As dimensões dos berrões podem atingir os dois metros, no entanto existem vários outros que chegam a ter apenas 30 centímetros. A zona da cultura dos Berrões situa-se no nordeste de Portugal e estende-se às províncias de Cáceres, Zamora, Ávila e Salamanca em Espanha.

Pelourinho da Torre da Dona Chama

Estas esculturas têm sido encontradas nas localidades que já existiam na Idade do Ferro e que ainda hoje permanecem (ex. Torre de Dona Chama) ou ainda em antigos castros ou mesmo junto de outros locais pertinentes (como por exemplo os pastos). Pensa-se que seriam marcas destinadas a assinalar recursos económicos essenciais e que teriam também, um valor simbólico, como presenças protectoras do gado e das localidades. Foram igualmente utilizados como monumentos funerários na época romana.
Quase certo era os berrões serem utilizados para fins de carácter religioso. As esculturas representariam animais sagrados a quem se prestava culto; como se leva a crer pelas inscrições que algumas destas esculturas exibem.
Temos por exemplo a tradução que foi feita da inscrição, em língua ibérica, do berrão de Las Cojotas que suporta esta teoria: “Deus Porco-bravo protector da cidade de Adorja” ou pelo templo dedicado ao Berrão de Picote em Miranda do Douro que infelizmente foi destruído.
A suportar ainda mais esta teoria alguns alardeiam ainda “fossetes” ou seja covinhas arredondadas provavelmente utilizadas para um qualquer ritual.
São famosos na literatura o Verraco da Ponte de Salamanca (**), onde começa a novela picaresca de Lázaro de Tormes ou os Touros de Guisando, que ainda a pouco visitei, junto dos quais Isabel a Católica foi proclamada herdeira de Castela e, por ser mencionado no Dom Quixote, para quem me conhece o meu livro favorito. Rota que alias fiz e farei sem “pança” mas com idealismo.
As estátuas têm levado sumiço: tem sido afectados pela erosão, os seus focinhos foram partidos por fundamentalismo religioso, enfim sempre são solavancos de 20 séculos.
Em Portugal estariam associados ao povos pré-romanos dos Zoelas e dos Vetões. No blog Pedras com Memória pode ler um óptimo artigo sobre os Berrões em Trás-os-Montes.
Na cidade de Bragança e na Torre de Dona Chama os berrões estão relacionados com pelourinhos, mas em relação a época da construção, um não tem nada a ver com o outro: os pelourinhos são medievais e posteriores e os quadrúpedes são da Idade do Ferro.
Junto ao pelourinho de Dona Chama, construído em granito uma escultura está representando um suíno, a que o povo dá o nome de Berroa e Ursa. Tem de comprimento 1,60m de altura 0,92 e de largura 0,36.
A estátua provavelmente terá vindo do monte de S. Brás onde existiu outrora um castro. Ler aqui sobre a Lenda da Dona Chama.
O pelourinho de Torre de D. Chama foi erguido no século XVI e  assenta num soco quadrangular de três degraus  que compensam o desnível do terreno. A base é quadrada e rematada por uma peça prismática quadrada chanfrada. A coluna, de fuste oitavado liso e de lados irregulares, é ligeiramente mais estreita no topo do que na base. O capitel, em cruz de braços iguais, mostra nos seus extremos representações de cabeças de animais. O remate paralelepípedo apresenta num dos lados as armas de Portugal, e é encimado por uma peça piramidal quadrangular”.1
Interessantes são as cabeças de animais salientes no topo que são únicas no quadro dos pelourinhos portugueses. Quase todo o pelourinho da Torre de D. Chama é constituído por peças do século XVI mas aquelas cabeças de animais (cães, porcos?) parecem ser mais provectas. Terão sido construídas baseadas no berrão vindo do povoado do monte de São Brás ou poderão mesmo ser peças provenientes deste? Fica a dúvida assaz interessante.
Pelourinhos e Berrões
Os pelourinhos situam-se na praça ou largo central das povoações e mais do que serem destinados a execução de um castigo, com manutenção do sentenciado com tempo variável, eram, e ainda são considerados como símbolos:

-do poder municipal na idade média;
-por representarem colectivamente a guarda pessoal dos interesses e regalias da população.
Também os berrões, ocuparam na Idade dos Metais um atributo simbólico e ocupavam um lugar central, e ainda hoje os berrões encontrados são colocados em posição de destaque amiudamente na Praça Central, por vezes em pedestal como se fosse o símbolo totémico das suas gentes, serve de exemplo este berrão da Torre de Dona Chama ou o “o urso” de Bragança e o de Murça.
Possuído de todos os atributos de totem e tabu destes lugares e das suas gentes, estas não gostam que algum turista incauto se monte no dorso do animal para se fazer fotografar para o álbum de fotografias. Fica o aviso ao amigo leitor, que aqui deseja vir.
Nota Bibliográfico: IGESPAR (1)

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Um comentário Pelourinho e Verraco na Torre de Dona Chama (Mirandela) (*)-A cultura dos Berrões

  1. Boa tarde:

    Nesta minha habitual pesquisa sobre tudo o que se escreve sobre Torre de Dona Chama, vim aqui parar e fixei-me sobre um aspecto do texto que falava sobre o pouco tráfego que teria a referência ao pelourinho de Torre de Dona Chama. Bem sei que a comparação era com o Mosteiro da Batalha…
    Mas não podia estar mais de acordo com a referência.
    Pela falta de reconhecimento do património de Torre de Dona Chama, em 4 de Setembro de 2015, constitui-se a associação Dona Flamula. Para mudar o estado da indiferença.
    Caso estejam interessados, visitem o nosso blog e visitem a Torre que vale a pena.

    Cumprimentos

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