Paisagem no Penedo Durão-Assumadouro (Parque Natural do Douro Internacional) (Freixo de Espada-à-Cinta (**)

Paisagem no Penedo Durão-Assumadouro (Parque Natural do Douro Internacional) (Freixo de Espada-à-Cinta (**)

(…)Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição(…)

Miguel Torga, Portugal, sobre o Reino Maravilhoso como chamou a Trás-os-Montes

O quartzítico Penedo Durão é um dos locais mais emblemáticos do Parque Natural do Douro Internacional. Penedo ciclópico e medonho está debruçado a centenas de metros em precipício sobre o rio Douro. Daqui avista-se a vasto  Planalto Castelhano que em Portugal se prolonga até à Aldeia Histórica de Marialva (***) que a Sul cessa contra a muralha enorme, estruturalmente complexa da Serra da Estrela (****).
Observa-se ainda a barragem de Saucelhe que constitui um aproveitamento hidroeléctrico espanhol, em funcionamento desde 1956 -escuta-se o ruído da água a sair pelo escoadouro das turbinas; na margem oposta minas abandonadas, a enorme cratera que desfigura a paisagem e a foz do selvagem rio Huebra quase gémeo do Águeda. E muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.
Um grifo, que é uma das aves mais espectaculares da fauna portuguesa voa tranquilamente abaixo de nós. É conhecido nesta região por abutardo, que com as suas asas largas com mais de  2,30 m de envergadura, utiliza as correntes de ar quente e os ventos para ascender até elevadas altitudes. Desta forma prospeta um vasto território procurando encontrar cadáveres de animais que constitui o seu alimento. Na nossa ascensão até ao Penedo Durão é possível observar os “alimentadores de abutres” colocado pelo Parque Natural do Douro Internacional (***). Melhor que às muralhas de Marvão (***), lhe assenta a descrição de Raul Brandão:”daqui se vêem as águias voando abaixo de nós”.

Um caminho de macadame para poente indica-nos “Assumadouro”. O automóvel com algum custo desloca-se sobre a cumeada do Penedo Durão, enorme baleia de rocha dura, sob a sua dianteira saltitam em fuga coelhos, tantos como nunca vimos. O denso coberto vegetal é odorífico e as estevas são predominantes. Por vezes numa nesga do terreno avista-se o plúmbeo Douro.
Chegamos ao ponto desejável a vista é inolvidável; é ali está Barca de Alva rodeada por terrenos boleados xistentos, acolá as quintas do Douro com olivais, amendoais, vinhas e laranjais a darem uma nota mediterrânea. Mansas e bravas, selvagens e distantes, estes territórios foram esquecidas pela UNESCO quando classificaram o Alto Douro Vinhateiro (*****); identificamos a Quinta do Salgueiro arroteada pelo poeta Guerra Junqueiro, que nos últimos anos da sua vida se entregou aos assuntos agrícolas e de mineração com notável zelo. Mais ao fundo serra da Marofa (*), Pinhel, talvez a Guarda, Ciudad Rodrigo e o estreito canhão do rio Águeda.
O Penedo Durão aqui é dissecado pelo vale estrutural da Ribeira do Mosteiro, com as suas extraordinárias dobras e a calçada de Aljapares (***), e que alberga uma das paisagens mais impressivas de Portugal. Depois do espectacular materializado pelo canhão da Ribeira do Mosteiro (***), o penedo quartzítico prossegue o seu caminho até a Senhora do Castelo em Urros (*).

penedo-durão-Freixo-de-espada-a-cinta

Nota pessoal em Penedo Durão
Na visita ao Penedo Durão não estávamos sós! Um casal suíço numa autocaravana bebe o nosso “sol engarrafado”, sentados confortavelmente em cadeiras de praia, dispersam os olhos por aquela beleza sem fim.
Conversamos, vão ali passar a noite, andam a viajar por toda a Europa. Talvez por simpatia dizem-me que Portugal e a Irlanda são os mais belos países que conheceram, e que o nosso é um dos últimos paraísos existentes na Humanidade. Ficam espantados quando eu lhes digo que por vezes os portugueses não gostam de o ser…não compreendem… como é possível? Digo-lhes que a esmagadora do povo lusitano, se lhes dessem a escolher entre a Suiça e Portugal, preferiam o primeiro. Dizem eles que devemos ser doidos, como é possível gostar-se mais duma pátria que não tem mar, apenas montanhas, que é gelado durante 7 meses, onde apenas se trabalha, dorme, come enlatados e no Inverno às duas horas da tarde já é noite. Como é possível o povo português bolçar sobre o paraíso terreal, e abre os braços para as arribas rochosas que caem, quase a prumo sobre a margem direita do Douro, meio milhar de metros mais abaixo. É imagem  telúrica de uma força imensa.
Vão comer um peixe pequeno azulado, que nunca experimentaram. Num fogareiro ajudo-os a assar uma sardinhada com pimentos. São constantes os elogios ao pitéu, acompanhado agora por um bom tinto duriense.
Já é noite, ao fundo muito pequenina a ponte iluminada de Edgar Cardoso, diz-me que tenho de voltar (o Sevilha ganha a Taça Uefa). De noite vultos suspeitos esvoaçam em redor…não tenho medo já conheço o Penedo Durão, que fica em Portugal, na margem direita do rio Douro no concelho esquecido de Freixo de Espada à Cinta.
Para ver mais fotografias do Penedo Durão clicar aqui.

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