Poços de Neve (neveiros do Coentral) e paisagem em Santo António das Neves (Castanheira de Pêra) (**)

Os homens privilegiados sempre tiveram o poder de ter um ror de gente da gleba a servi-los, sempre assim foi e será, como é exemplo notável estes 3 neveiros (poços de neve) situados em Santo António das Neves na serra da Lousã. Se o leitor for paciente mais adiante entenderá o sentido de tão ditosa sentença.
Os Poços da Neve e o Ofício do neveiro
É sempre prazenteiro vaguear pelas cumeadas da serra da Lousã, com as estranhezas a surgirem, aqui e ali, embora ligeiramente infeliz porque os veados que por aqui são abundantes, fogem a 4 patas deste empedernido viajante de trazer por casa. Outro exemplo da estranheza são os singulares neveiros do Coentral.
Nada sabemos da idade dos neveiros e mesmo a sua tipologia arquitectonica pouco denúncia, apesar de serem mais antigos do que a contígua a capela de Santo António das Neves mandada construir pelo neveiro-mor (nem sei se tal profissão existia e cuja raridade já então teria que ser forçosamente inevitável).
A notícia mais antiga dos neveiros está plasmada num ofício de 1757 com alvará de D. José assinado pelo Marquês de Pombal.
Dos sete poços construídos somente restam três. Os nossos olhos procuram ingloriamente vestígios dos outros 4. 
Os poços em xisto que ainda existem são redondos no seu interior; todavia dois são octogonais no seu exterior e o outro é circular.
“Cada poço tem uma só porta, estreita, virada para nascente, como para evitar que, quando o Sol é mais forte, possa entrar pela estreita porta e derreter a neve ali guardada.
Utilizando escadas de mão, feitas em tosca madeira, os homens desciam ao fundo destes poços – que então tinham uma profundidade superior a uma dezena de metros – e à medida que neles iam sendo despejadas as cestas com neve iam calcando esta com pesados maços de madeira que empunhavam vigorosamente, à maneira dos calceteiros de hoje.
Empedernida, isolada entre os paredões alisados pelo estuque, coberta depois de palha e fetos, a neve conservava-se nesses amplos reservatórios, até ao Verão – sem que uma réstia de Sol lhe pudesse chegar.
Quando chegava o tempo quente, a neve era cortada e seguia em grandes blocos para Lisboa.  O transporte era feito, numa primeira etapa, em ronceiros carros de bois. Apenas três ou quatro desses grandes blocos podiam ser carregados nessas robustas carroças e eram cuidadosamente envolvidos em palha, em fetos, mesmo em serapilheiras ou, ainda, metidos em caixotes.

Neveiros

Mas, mesmo assim, diz o testemunho oral que muita neve se perdia pelo caminho percorrido através dos tortuosos carreiros da serra, quase penosamente.
Em Miranda do Corvo fazia-se a primeira muda dos animais e depois os carros partiam para Constância onde, da via terrestre, se passava para a via fluvial até ao Terreiro do Paço onde eram feitos saborosos gelados para o Rei e sua corte, tão saborosos que os Lisboetas os procuravam no Martinho da Arcada e outros cafés”. 1

Como estamos sornas e o texto dos meus amigos da Lousitanea-Liga de Amigos da Serra da Lousã, têm qualidade aqui vai a sua descrição.
“Na aldeia do Coentral viveram os neveiros e os trabalhadores desta actividade que eram coordenados pelo Neveiro-mor. Um desses homens foi Julião de Castro (que mandou construir a capela em honra de Santo António das Neves) e era ele que contratava na aldeia os trabalhadores – homens, mulheres e crianças. Os homens trabalhavam no interior dos neveiros, as mulheres e crianças andavam pela envolvente dos poços para recolher a neve. Quando nevava no Sto. António da Neve, os habitantes do Coentral, como não conseguiam vislumbrar a vertente dos neveiros, dependiam da ajuda dos habitantes dos Povorais (aldeia serrana de Góis localizada nos Penedos de Góis – defronte do Sto António da Neve) pois estes conseguiam ver a neve e acorriam à capela do Sto António da Neve para tocar o sino e assim avisar os Coentrenses”2.
Entretanto, para reforço da produção, as enxadas iam rasgando as Alagoas que eram, afinal, uns largos tabuleiros artificiais onde a água das chuvas ficava empoçada para depois vir a transformar-se em gelo.

Onde estão hoje estas Alagoas por entre lousas de xisto e urzes rasteiras?
Que estragos não terão sido impingidos a este singular conjunto quando, em 1971, foi ali construída uma pista de aviões para se acudir aos incêndios da floresta?
Retorcendo ao primeiro parágrafo entende-se que o pagamento ao povo que por aqui trabalhava em tão singular ofício de não deveria ser muito, e que os poderosos na remota capital lisboeta, se refastelavam com esta folgança gelada, vindo dos poços neveiros. Também na serra de Montejunto existiam semelhantes estruturas  para o mesmo fim.
O panorama magnífico dos neveiros da Serra da Lousã
Subindo mais um pouco deparamo-nos com a solitária pista do Coentral (1102 m), destinada a servir a aviação de combate a incêndios e de onde se desfruta de uma grandiosa imensidão em desnível de mais de 700 metros, para o “fosso do Mondego”; infelizmente o visitante está limitado, por vezes a ir uma vez e ter um ingrato céu brumoso com pouca nitidez desejável.
A descrição da paisagem dos neveiros quase não existe aqui, mas o leitor não fique desolado, porque será na descrição do Alto ou Altar do Trevim (***), o ponto culminante da serra da Lousã que terá a debuxo do que se avista, pois este é um dos grandes mirantes do centro de Portugal.
Créditos fotográficos-fotografia aérea é do óptimo blogue portugalfotografiaaerea.
1-Texto retirado do site da Câmara Municipal de Castanheira de Pêra
2- Texto retirado do site da Lousitanea- Liga de Amigos da Serra da Lousã.
Outra nota na internet- Eis mais um interessante texto sobre os curiosos neveiros do Coentral

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2 comentários Poços de Neve (neveiros do Coentral) e paisagem em Santo António das Neves (Castanheira de Pêra) (**)

  1. Teresa says:

    nunca pensei que o trajecto passasse em Miranda do Corvo…

  2. laurinda barata says:

    gosto da ´histororo da serre que a primeira que vejo quando me lavanto e esta serra ja dançei muita vez no santo antonio na minha juventude e depois de casada ja sobi e desci a serra por a lousa a conduzir e amei belos tempos que tudo isso fazia e tudo acabou para mim

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