Paisagem e Ponte Filipina no rio Zêzere na zona da Barragem do Cabril (Pedrogão Grande e Sertã) (*)

Ponte Filipina

Desde sempre os vales encaixados apesar de um pouco repulsivos a ocupação humana, pelo abrupto declive do terreno, fascinaram as gentes.
Por exemplo neste local clamei hossanas a paisagem de Cidadelhe no vale do Côa (ler aqui).
Também o vale do Zêzere, na zona da barragem do Cabril é belo, embora infelizmente desnaturalizado pela construção desta infra-estrutura. O troço que nos referimos fica obviamente a jusante da barragem.
O Vale encaixado na zona da Ponte Filipina
Toda esta beleza se deve a incisão epigénica fluvial do rio Zêzere no Granito de Pedrogão instalado na região a cerca de 524-580 milhões de anos, que aqui forma um autêntico canhão.
Três grandes estruturas captam a nossa atenção: a barragem do Cabril (construída entre 1951 e 1954), que é uma das maiores barragens portuguesas e a mais (136 metros); também de alturas falamos porque aqui está segunda ponte mais alta de Portugal que permite a passagem da estrada do IC8 com 170 metros (já agora como curiosidade a ponte mais alta de Portugal ser a ponte 25 de Abril (*) em Lisboa com 190 metros).
Mas como não queremos enfadar os viajantes com tão altas altitudes, fiquemo-nos então pela Ponte Filipina, logo abaixo da ponte viaduto.
Para lá chegarmos o melhor caminho é o que parte de Pedrogão Pequeno (colocada inapropriadamente como localidade pertencente a Rede de Aldeias de Xisto) e que desce por uma calçada romana. Sabemos que o povo tem a cisma de chamar qualquer calçada coeva de romana e o mesmo sucede as pontes, mas aqui tem alguma razão.

A Ponte Filipina entre Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno
No século XVII, entre 1607 e 1610, por ruína da ponte antiga, houve necessidade de construir a ponte Filipina. O trânsito a pé ao a muar desde os romanos e ao longo de muitos séculos que se processava entre a Beira Baixa e a Beira Litoral tinha que se fazer obrigatoriamente por aqui, pois era a única que permitia a passagem de Verão e de Inverno. Nas épocas estivais a passagem do Zêzere era possível noutros locais. Aliás esta passagem no rio Zêzere, seria o único lugar com ponte de cantaria, desde o Fundão até à sua foz.
A ponte anterior (romana e/ou medieval) à que lá existe foi avistada há alguns anos atrás quando foi despejada a albufeira da Barragem da Bouçã (actualmente encontra-se a 7 m abaixo da superfície da água).
A antiguidade está bem patente em toda esta região pois existia, de ambos os lados do Zêzere, em frente um do outro, dois povoados do Bronze Final — Nossa Senhora da Confiança e Nossa Senhora dos Milagres. O primeiro teve ocupação provável também na I Idade do Ferro; o segundo teve ocupação ininterrupta até à época romana. O primeiro deve ter tido um pequeno templo romano no seu topo — inscrição aqui descoberta à Deusa Nábia) e aparecimento de uma base de coluna e um fuste em Pedrogão Pequeno povoação perto) (ler aqui).
A servir a ponte, acha-se uma calçada de pedra miúda de granito, construída provavelmente na altura da ponte filipina e que esteve ao serviço rodoviário até 1954, altura em que foi construída a Barragem do Cabril e por aí se passou a processar todo o trânsito. Actualmente, faz-se pelo IC 8, cuja ponte já referimos. Por entre a custosa a estrada filipina, alcandorada em tão árdua encosta, ainda hoje se notam alguns lajeados que poderão ser romanos.

A nossa cenográfica ponte Filipina é constituída então por três arcos com 72 metros de comprimento. Originalmente estaria a cerca de 30 metros do leito do rio. O arco central, de maior vão, tem 22 metros de abertura. A ponte é construída, em alvenaria de granito, destacando-se no seu trabalho os talhamares. Foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1982.
Da ponte parte um percurso pedestre, provavelmente muito bonito até ao Moinho das Freiras, sempre com o rio Zêzere a sua ilharga. Por falta de tempo não visitamos o moinho das freiras, que tem um túnel que terá sido construído em simultâneo com a Barragem do Cabril, para a passagem de máquinas e camiões. O Moinho das Freiras (engenho que já não existe) está equipado com mesinhas, cadeiras e churrasqueira comunitária e que deveria ser todo fixolas para um piquenique, bem não rabujemos, também não é despiciente nutrirmo-nos no Alto da Senhora da Confiança… local apropriado para evocarmos Nabia, deusa dos rios e da água na mitologia galaica e lusitana: o rio Neiva no Minho, o rio Nabão que passa por Tomar, já perto daqui, foram baptizados em sua homenagem. Também existe a referência de Nabia na Fonte do Ídolo em Braga (*)
Deusa Nabia, protegei os troços dos rios Tua e Mondego das suas destruidoras e usurárias barragens ditadas por tão ruim gente. “Aegroto dum anima est, spes est”. Obrigado!
Para aqueles que possam ler aqui alguma pretensiosa vaidade espiritual, nós não somos assim e como raiamos a despretensão fica a tradução desta latinidade. “Enquanto uma pessoa doente estiver consciente (ou enquanto reagir), ainda há esperança”.
1- Créditos fotográficos da segunda fotografia é de do blog Portugal Nature

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3 comentários Paisagem e Ponte Filipina no rio Zêzere na zona da Barragem do Cabril (Pedrogão Grande e Sertã) (*)

  1. Margarida Mendes says:

    Faz exactamente amanhã 2 anos que ofereci a mim mesma e ao meu marido, por ocasião dos nossos 25 anos de casados, um fim de semana nesta região.
    A Ponte Filipina foi objecto do nosso percurso por 2 vezes, já que a procurámos primeiro sozinhos e depois com um grupo que connosco fez um passeio TT durante a tarde. Neste momento, surge a hipótese de voltar a visitar a região com familiares pois não paramos de falar na ponte, que da nova não dá para ver…

  2. eduardo paulo says:

    uma das melhores descrições que encontrei sobre esta zona!…parabéns ao seu autor e muito obrigado por toda a informação aqui contida

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