Portas de Rodão e o Conhal do Arneiro (Nisa e Vila Velha de Rodão) (***)

Sabia que…as Portas do Ródão, no rio Tejo, nos concelhos de Nisa e Vila Velha de Rodão, estão candidatas as sete maravilhas naturais de Portugal e que já estão classificadas como Monumento Natural?
Sabe também que na margem esquerda das Portas de Ródão se encontra uma magnífica exploração aurífera romana, no sítio conhecido como Conhal do Arneiro?
As Portas de Rodão, situadas nos concelhos de Nisa (margem esquerda) e Vila Velha de Rodão (margem direita) são uma espectacular garganta epigénica do rio Tejo que corta espessas bancadas quartzíticas ordovícicas, que erguem a Serra das Talhadas ou de São Miguel, um pouco a semelhança do Cerro da Nossa Senhora da Candosa (*) em Góis (já aqui descrito).
O rio Tejo, a partir do momento em que passa a correr no sentido do Atlântico há 2,6 milhões de anos, sofre um rápido e profundo encaixe no vale onde se formam vários terraços em escadaria, correspondendo cada um a antigas planícies de cheia onde se depositam sedimentos mais ou menos grosseiros, testemunhos da energia das águas.
É aqui que o Tejo tem a sua maior profundidade (aproximadamente 50 metros) provocada pela enorme queda da água que ali existia, já que a crista funcionava como uma parede de uma represa.
Mais tarde até a dinamite se tentou alargar o rio deste poderoso estrangulamento, pois este local era o limite de navegabilidade do Tejo.
Mas para além da espectacularidade da imponência geomorfológica, vale também pela sua biologia (sítio Natura 2000 com a flora autóctone e avifauna), arqueológicos (Conhal do Arneiro e Foz do Enxarrique) e histórico (com a torre do rei Wamba).

Portas de Rodão

A Biologia das Portas de Rodão
As Portas de Ródão, que servem de habitat para a maior colónia de grifos do país, são um local privilegiado para a investigação de fauna e avifauna, onde podem ser observadas 116 espécies de aves, muitas delas consideradas em vias de extinção e algumas raras, das quais se destacam a cegonha-preta, milhafre real, abutre-preto, águia perdigueira, narceja, bufo-real, ferreirinha-serrana e papa-moscas.
Como se trata de uma zona com baixa densidade populacional, nas portas de Ródão é ainda possível observar animais selvagens, como o javali, o veado, a raposa, o ginete, a lebre, o coelho, o saca-rabos, o gato bravo e as lontras. Quanto aos peixes também são diversas as espécies que predominam, destacando-se o Barbo, a Boga, a Carpa, Lúcio, Achigã, Enguia, Perca, Tença, Lagostim, o Sável e o Bordalo.
Na margem direita situa-se o castelo do rei Wamba ou de Rodão
Em vez de castelo será mais correcto designa-la de torre de vigília ou ser a torre de menagem de um castelo desaparecido. Embora a sua primitiva edificação seja tradicionalmente atribuída a Wamba (672-680), último grande rei dos Visigodos, provavelmente a sua origem poderá ser mais recente, podendo remontar ao século XII à época da Reconquista cristã da península Ibérica por cavaleiros da Ordem dos Templários, como se pode ver na porta com a cruz da Ordem do Templo esculpida.
A partir do século XVIII e até as invasões francesas a torre foi utilizada como base da artilharia para protecção da passagem do rio Tejo. A cerca de 150 metros, existe uma ermida erguida em honra de Nossa Senhora do Castelo.
Espantosa obra de mineração de ouro nas Portas de Rodão
Deste local vislumbra-se um vasto panorama sobre o vale do Tejo, com destaque para as escombreiras de estéreis com calhaus rolados de prospecção de ouro do Conhal do Arneiro, na margem esquerda. Este conjunto é uma gigantesca obra de mineração romana de exploração aurífera.
Os romanos, quando aqui chegaram no séc I A.C., repararam que o rio perdia uma boa parte da sua capacidade de transporte, após a passagem das Portas de Rodão pelo que se depararam com 6m (em altura) de sedimentos acumulados. Não demoraram muito a perceber que estas areias eram ricas em ouro, que tinha sido trazido até aqui pelas águas do Tejo!
No entanto a tarefa de remoção do apetecível minério não prometia ser fácil: as finas areias “enriquecidas” encontravam-se “misturadas” com uma enorme quantidade de pedras roladas (quartzitos) mais resistentes e sem interesse económico.  

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Os romanos, ou por outras os seus escravos, não se detiveram e deitaram mãos à obra!
 “Para realizar esta empreitada foi necessário criar uma autêntica “indústria” no local. Construíram-se canais que desviavam água da Ribeira de Nisa, e conduziam-na através da Serra de S. Miguel, até um sistema de retenção. Aí, o volume de água permitia alcançar pressão suficiente para que fosse depois canalizada contra os sedimentos “desmontando-os”. 
Numa primeira fase, grupos de homens separavam as pedras roladas (de maior dimensão) à mão, dos restantes sedimentos, originando os amontoados visíveis ainda hoje na paisagem (alguns com 5 m de altura!). Daí, os sedimentos eram canalizados ao longo da exploração através de canais criados para esse efeito, que foram construídos com algumas das pedras roladas excedentes. 
Estes canais conduziam a água rica em sedimentos (e ouro!!!) até uma lagoa no meio da exploração, onde os minerais eram concentrados. Nesta segunda fase os sedimentos eram bateados (à semelhança do que fazem os garimpeiros) para a separação final do ouro. Para que não escapasse nenhum mg do precioso metal havia ainda um outro sistema que consistia na colocação de plantas ao longo dos canais, onde os sedimentos mais finos iam ficando presos. Regularmente estas plantas eram recolhidas e queimadas até formarem cinzas. As cinzas eram depois crivadas para se proceder à recuperação de algum ouro que lá tivesse ficado! 
Os excedentes deste processo eram depois canalizados para o Tejo através de canais de evacuação de estéreis, facilmente identificados a norte da exploração (assemelham-se a pequenos muros de pedras roladas)

Neste local o terreno foi totalmente terraplanado em 6 m (de altura). Foi então que os romanos se aperceberam que o solo que estava por baixo lhes reservava uma surpresa: sob os 6 m de sedimento “dourado” que haviam cautelosamente perscrutado havia mais 15 m de sedimento, com maior teor em ouro! Outros sistemas hídricos de caudal inferior ao do Tejo tinham aqui deixado areias preciosas! 
A exploração continuou, mudando para sempre a paisagem deste local! Foram removidos 15 m de sedimento em toda esta zona. No entanto, no centro da exploração podemos encontrar um pedaço de terreno intocado, que mantém os seus cerce de 15 m de altura em relação à área envolvente! Do topo desta elevação, conhecida por castelejo, podemos ter a percepção do volume de terras explorado. A sua posição central é estratégica e, por esse motivo, serviria provavelmente para controlar a mina e o tráfego fluvial. Aconselhamos uma subida ao castelejo (quanto mais não seja para poder deitar as mãos à cache…) e visualizar toda a extensa escombreira formada por gigantescos amontoados de seixos, testemunhos da arrugiae romana.  
Este achado valeu o investimento provável de cerca de 2 séculos (I A.C. a I D.C.), para remover mais de 10 km cúbicos de terra.


Ainda no século XVI Dom João III terá mandado fazer um ceptro em ouro extraído de Portugal e Vasco da Gama uma cruz, de forma a mostrar aos venezianos que Portugal tinha melhor ouro do que o Oriente.
Visitar as Portas de Rodão é um momento único, porque é um caso em que o ditado do povo é acertado,”porque água mole em pedra dura tanto da até que fura”. E tanto é acertado vê-las de cima, como junto a margem do rio Tejo no Conhal (Se não quiserem andar mesmo nada podem ir de carro a partir de Arneiro: conduzir pelas estradas de terra batida e seguir as indicações de Tejo/Pego das Portas (cais fluvial); do cais fluvial conseguimos ver também: o castelo de Ródão, a ilha (que mais parece uma península) da Fonte das Virtudes, a foz do Enxarrique, a Serra de S. Miguel e a Serra das Talhadas. No ar dominam os grifos (Gyps fulvus) e na terra o zimbro (Juniperus sp.) e a oliveira (Olea europaeae), completando assim uma paisagem deslumbrante. No Verão pode-se sentir o aroma adocicado da esteva (Cistus ladanifer) e funcho (Foeniculum vulgare). 
E o leitor vai votar nas Portas de Rodão, como uma das 7 maravilhas naturais de Portugal?
1- Texto adaptado daqui do Wikipedia
Onde dormir: Casa Covão da Abitureira

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