Povoado de Castelo Velho de Freixo de Numão (Vila Nova de Foz Côa) (**)

O Povoado de Castelo Velho em Vila Nova de Foz Côa, é um lugar imponente como miradouro e como “sítio arqueológico” e que desmente a nossa teoria usual sobre os “castros”.
“Porque razão as populações de há 5 000 anos- que viviam espalhadas pelo território, caçando, pescando, recolhendo alimentos, cultivando pequenos campos, ou apascentando ovelhas, cabras, porcos e bois- aplicariam as suas melhores energias nestes locais altos, sobranceiros, onde ao apenas uma minoria viveria? “
O panorama do Castelo Velho
Povoado de Castelo Velho está sobranceiro ao o Vale da Vilariça (**) (aqui mais apertado, mas não menos espectacular), que aqui tem outro nome que agora não recordo, a lembrar tensões feéricas ocorridas na crosta terrestre; são os montes boleados xistentos, que coleiam o vale sagrado do Côa; é a pequena e bonita Vila Nova de Foz Côa (agora cidade nova) em toda a sua abrangência; é a pequena crista de Calábria, que no seu cume continha uma hipotética e lendária cidade visigótica e onde nos seus flancos se estende o vinhedo da Quinta da Leda, onde se fabrica um dos mais afamados vinhos tintos mundiais – o Barca Velha; é o monte de São Gabriel (*); é a margem direita do rio Douro, que se divisa no meandro do Pocinho com a grandiosa crista quartzítica de Penedo Durão (*) e que se estende até à Ermida da Senhora do Castelo-Urros (*), já em terras transmontanas; é a serra da Marofa (*); é o Planalto de Numão, e é a Meseta Castelhana, que se inicia, ainda, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.
História e estrutura do Castelo Velho
O sítio foi descoberto em 1980 por António Sá Coixão, investigado e musealizado pela equipa de Susana de Oliveira Jorge entre 1989 e 2003.
O Castelo Velho foi habitado entre 3000 (à cinco mil anos) e 1300 anos a.C, ou seja desde o Calcolítico à Idade do Bronze, e subitamente foi abandonado na idade do Ferro. O espaço de planta circular, é constituído por dois conjuntos de muralhas constituídas por xisto na sua base e argila na parte superior: a exterior mais frágil, com função de protecção ou simples delimitação; e a muralha interior, mais marcada e dotada de contrafortes. No lado Sul teria uma rampa pétrea de acesso- é um paradoxo em “tempos” considerados bélicos. No interior da cerca foram encontradas estruturas de combustão de possíveis lareiras, buracos de postes, silos e espaços para o armazenamento de alimentos e produtos, bem como áreas dedicadas à moagem e à tecelagem, com imensos pesos de tear.

Neste recinto as estruturas subcirculares, junto ás portas voltadas para os quatro pontos cardeais, têm carácter eventualmente utilitário, que poderão ter funcionado como espaços de reserva de alimentos; mas a sua disposição pode obedecer, concomitantemente, a preocupação de natureza ritual. Na estrutura junto à entrada Oeste foram ainda encontrados enterramentos, o que acentua o seu carácter religioso e cerimonial.
No topo do morro foi construída por uma grande torre maciça de planta circular, que era um grandioso “monumento” destacado na paisagem envolvente. Todo o conjunto é uma arquitectura premeditadamente imponente na paisagem.
A estranha função do Castelo Velho
Normalmente associamos a um “espaço” destes a um povoado defensivo, o que emerge daqui um estado latente de guerra das tribos da idade da Pedra e dos Metais- mas seria efectivamente assim? Tal poderia ter ocorrido, mas muito pontualmente, e a sua função principal seria a de ser um marco identitário social e unificador de um território; e quem sabe até se não seria um centro proto-administrativo de uma população agro-pastoril que vivia em redor, nos planaltos e vales circundantes- com destaque para o aro de Freixo de Numão, como atestam os vários locais descobertos! Aqui se reuniriam pontualmente pastores, agricultores e metalurgistas; talvez as personalidades mais importantes do território. 

Foi edificada uma grande torre central que serviria não tanto como estrutura defensiva, mas antes como “monumento” sinalizador da paisagem-ou seja de marcação simbólica e/ou territorial (e porque não, estética) desta região e das populações que aí habitavam. Provavelmente a cerca, com uma altura que poderia ter 3-4 metros seria pintada, com forte impacto visual e eivada de simbolismo. Outros “castros” existem na região, sendo o do Castanheiro do Vento (Horto do Douro) o de maior dimensão e que ainda se encontra em fase de estudo.
Em qualquer circunstância, emerge uma pergunta central: o que ocorria no interior e á volta deste “monumento”?
Painel explicativo do Povoado de Castelo Velho
“Porque razão as populações de há 5 000 anos- que viviam espalhadas pelo território, caçando, pescando, recolhendo alimentos, cultivando pequenos campos, ou apascentando ovelhas, cabras, porcos e bois- aplicariam as suas melhores energias nestes locais altos, sobranceiros, onde ao apenas uma minoria viveria? “
Os primeiros arqueólogos julgaram que se tratava de facto de uma espécie de castelos ou fortalezas, onde as pessoas defendiam bens e vidas de grupos inimigos.
Hoje temos razões para pensar que a motivação destas gentes em reunir centenas, senão milhares, de indivíduos, num esforço monumental tão gigantesco, era a necessidade de assegurar a coesão e a identidade de grupos que, ao construírem estes lugares, confirmavam a liderança carismática dos chefes e afirmavam os laços que os uniam. Uma vez erigidos, os sítios como o Castelo velho impunham-se duramente no espaço (viam-se de longe) e ao mesmo tempo fixava-se na memória das gentes. Ou seja estes locais eram importantes para a afirmação dos territórios”.

Povoado de Castelo Velho de Freixo de Numão (Vila Nova de Foz Côa)

E o que diz Susana de Oliveira Jorge
“Não foi fácil escavar e também não foi fácil interpretar. A equipa começou a escavar Castelo Velho “como se fosse uma fortificação da Idade do Cobre” mas mudou de ideias ao longo do processo. “Não há provas de conflito no terceiro milénio a.C., pelo menos tal qual o encontramos na contemporaneidade ou mesmo na Idade Média. Estas comunidades não tinham tecnologia para sobreviver ao conflito e por isso evitavam-no. A dada altura tive de me colocar a questão de uma função alternativa para este sítio – foi o meu problema e ainda é. Mas eu digo que Castelo Velho era um sítio especial, de carácter cerimonial, onde as pessoas desenvolviam acções de negociação social e de criação de identidades. Durante muitos anos fiquei a pregar sozinha no deserto da Península Ibérica. Agora já não estou tanto”.
Para a arqueologia peninsular da Pré-História, Castelo Velho foi uma mudança de paradigma. Já não se olha da mesma maneira para o terceiro milénio”.
In (5 Ago 2007). O Público.
A intervenção arquitectónica contemporânea
Todo este espaço único foi magnificamente musealizado numa obra de arquitectura de Alexandre Alves da Costa e Sérgio Fernandez. Tem um centro de interpretação moderno, inaugurado em Agosto de 2007, de belas linhas, modernas e arrojadas, em que os arquitectos tiveram a feliz ideia de ressuscitar contemporaneamente a torre central com três pisos, que serve de mirante para todo o monumento e a paisagem em redor; todo o espaço pode ser visitado por um passadiço de madeira, que de forma alguma se mistura com os vestígios arqueológicos.
Partamos do aro de Freixo de Numão, envolto em conhecimento, mistério e com o espírito atestado de infinita beleza. O vento aqui bafeja.
Boa Viagem!

Please follow and like us:

Um comentário Povoado de Castelo Velho de Freixo de Numão (Vila Nova de Foz Côa) (**)

  1. Dorie says:

    Very informative post, i am regular reader
    of your blog. I noticed that your website is outranked
    by many other blogs in google’s search results.
    You deserve to be in top-10. I know what can help you, search in google for:

    Omond’s tips outsource the work

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>