Povoado do Baldoeiro e Miradouro de São Gregório (*) (Torre de Moncorvo)- Sabia que…em Portugal se praticou o culto da Ophiusa?

4 razões para visitar o Povoado do Baldoeiro e o Miradouro de São Gregório

1-Pelo panorama para o vale da Vilariça
2-Pelos inúmeros vestígios arqueológicos que vão desde a Idade do Bronze à Alta idade Média do Baldoeiro
3-Pelas insculturas mágica-religiosas serpentiformes
4-Pelo belo fraguedo granítico que aqui existe com as três fragas mais imponentes a terem nomes enigmáticos  (Fraga da Cobra , Fraga do Ninho do Corvo  e Fraga da Casa do Padre)

Depois de atravessar a ponte Filipina e continuando na IP2 para norte, encontrará uma  bonita estrada sinuosa sobe para o Planalto da Adeganha, onde deve parar em todo o recanto porque a paisagem é de encher o olho. Depois de ir ver a magnífica igreja românica da Adeganha (**), demore-se algum tempo no Miradouro de São Gregório e no castro do Baldoeiro, de onde observa o vicejante Vale da Vilariça (**), a colina isolada da mítica Santa Cruz da Vilariça, a foz do selvático rio Sabor, e a curva do Douro que circunda o Monte Meão; e no lado oposto do vale observe o grandioso bloco tectónico soerguido e ali se estiver um pouco mais atento repare no sítio da fragada onde se situam as ruínas do antigo convento Trinitário e o miradouro de Santa Bárbara. Mas mais perto de nós temos outra fragada que encerram em si lendas e mistérios magníficos, com as fragas de maior destaque a terem o nome de Casa do Padre, Ninho do Corvo e da Cobra.

O misterioso Povoado do Baldoeiro

Mas é aqui nesta encosta, neste esporão à nossa frente, no seio de imponentes rochas graníticas, que se encontra o mítico Povoado do Baldoeiro. Aqui  o belo é mais importante que o útil, pois  aquelas pedras sussurram-nos segredos amatórios.
Abandone o miradouro e percorra aquela tosco carreiro e o amigo atento muito irá ver, se não tem sensibilidade de observador sabedor apenas verá um monte de rochas disformes e não  apreenderá a alma panteísta do local.

Povoado do Baldoeiro no Miradouro de São Gregório em Estevais no concelho de Torre de Moncorvo

Povoado do Baldoeiro no Miradouro de São Gregório em Estevais no concelho de Torre de Moncorvo

O Povoado do Baldoeiro apresenta vestígios de ocupações do Calcolítico, do Bronze Final, da Idade do Ferro Inicial, Romana e da Alta Idade Média. Ainda existem ténues vestígios de habitações (duas fiadas de pedra no máximo) e de cerca defensiva da idade do Ferro,  uma enigmática estrada de pedra, lajeados, sepulturas rupestres, restos de uma igreja que aproveitaram prováveis pedras de um templo romano, penedos com estranhas formas, reparamos naquele, fiel vagina da Deusa ctónica, onde nos podemos sentar como animalejo, restos de cerâmica utilitária incisiva e lisa, fragmentos de telha; também no Povoado do Baldoeiro aqui foram descobertos machados de pedra polida.

O Culto das Serpentes no Povoado do Baldoeiro, Portugal a Terra da Ophiusa
Mais comoção no Povoado do Baldoeiro ao ver os restos derruídos da românica igreja de São Mamede, o local onde existiu um torre medieval e além sepulturas antropomórficas. Mas onde a emoção atinge o extremo é ver por fim, naquele enorme penedo granítico, conhecido localmente por Fraga do Corvo e, também, por Fraga ou Penedo do Cobrão grandes insculturas serpentiformes, relacionadas com cultos ofiliátrico, já descobertas por Santos Júnior. Aliás a bonita fotografia com o menino é retirada do espólio do Prof. Santos Júnior depositado no Arquivo Histórico da Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo. São no conjunto  de seis inscrições, das quais, a maior mede três metros. No topo do penedo estão entalhes artificiais cravados na rocha que poderão representar tinas para libações a deuses pagãos desconhecidos e que poderão estar relacionados com o culto ofiolátrico que foi praticado pelo menos na idade do Bronze.

O romano Avieno chamava ao território português como Ophiusa “Terra das Serpentes”, com um povo adorador de ofídios, talvez tal desiderato seja da Idade do Bronze. Segundo este autor os Estríminios, que habitavam o Ocidente Peninsular, teriam sido expulsos por uma “invasão de serpentes” ou por um povo os Saephes que conforme o nome indica, seriam adoradores de serpentes (do grego sepes). Será a imaginação de Avieno a funcionar, será lenda ou será realidade da nossa pré-história? Estranho é sentir os ofídios como totem ou manifestação divina, agora tão repulsivos ao nosso sentir. Mas mais  penedos insculturados com serpentiformes existem em Portugal, como é o caso desta bicha Pintada em Vila do Rei (que aqui pode ler) ou das gravuras rupestres da pedra da Moura no concelho de Sever do Vouga.

Seria aqui no Povoado do Baldoeiro a Cividade dos Banienenes? Assim estaríamos a falar de um importante castro romanizado, de um dos povos citado na magnífica Ponte Romana de Alcântara (***). Certo é que opovo baniense  habitaria esta região e a ara romana encontrada quase o prova.

Apesar dos parcos vestígios romanos, no povoado do Baldoeiro foi encontrada uma bela  ara dedicada a Júpiter e à Civitas dos Banienses, dedicada por Sulpicus Basus dos Baniense que se encontra no Museu Nacional de Arqueologia (aqui pode ver), nos restos da igreja de São Mamede, que aproveitou um templo romano. Também aqui foi encontrado um Touro em pedra encontrado por José Leite de Vasconcelos.

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No recôndito do meu pensamento germinaram no espírito ideias confusas de solidão, renúncia e erudição. Mas a magia e a beleza do local tudo abrangem com vestígios de diferentes povos que por aqui passaram em camadas sobrepostas de mistérios.
Quando partimos daqui compreendemos melhor a religião do saudoso Orlando Ribeiro. Dizemos então até a próxima, a toda uma multidão estratigráfica de fantasmas, povos que fomos e já não somos. Partimos ainda com o avatar da Lua a surgir e que no zénite flutua ainda um resto de clarão crepuscular. Desaviemo-nos de poesia e indo as coisas práticas aviso-o de que o matagal é muito e o local não está pronto para receber qualquer turista normal destreinado para estas coisas do património arqueológico e sem roupa apropriada, pois não  vá aparecer um mau cobrão que o faça pernear!

Referências Adicionais:

- Avieno, Rúfio Festo (ed. José Ribeiro Ferreira), Orla Marítima de 350 d.C., Lisboa, 1992.
-Discover douro valley ótimo site sobre o Douro patrocinado pela National Geographic e que aqui apresenta um belo texto e fotografias sobre o Miradouro de São Gregório (clicar aqui)
-O Cantinho do Jorge-As primeiras fotografias do Slideshow são do magnífico blog sobre Trás-os-Montes do Jorge Delfim


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Um comentário Povoado do Baldoeiro e Miradouro de São Gregório (*) (Torre de Moncorvo)- Sabia que…em Portugal se praticou o culto da Ophiusa?

  1. Woods says:

    I could read a book about this without fniding such real-world approaches!

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