Paisagem quartzítica, Bichas Pintadas e cascatas da praia fluvial do Penedo Furado (Vila de Rei) (**)

praia fluvial do Penedo Furado

Em região despovoada e  destruída pelos incêndios florestais subsiste uma belíssima paisagem quartzítica perto da aldeia de Milreu, com cascatas uma “bicha pintada” e a praia fluvial do Penedo Furado que é candidata a uma das Sete Maravilhas de Portugal-Praias (aqui mais informação sobre o concurso).
No Miradouro da praia fluvial do Penedo Furado, inaugurado em 1964, é possível admirar a paisagem de serras e montes revestidos de antigos pinhais quase todos ardidos, mas o maior fascínio que nos prende é  o universo geológico e lendário que jaz a nossos pés em vale escarpado; um pouco mais abaixo encontra-se um afloramento quartzítico com uma fenda, que dá nome à praia fluvial do Penedo Furado. A origem do túnel é artificial cuja origem ignoro. Se o leitor é da região e se conhece a razão desta passagem poderia-nos ajudar a completar o nosso texto?
As rochas são quartzitos ordovícios (formados entre 450-550 milhões de anos) com finas intercalações de filitos que aqui exibem icnofósseis como a ilustre “bicha pintada”. Com tais tipos de rocha e água a marulhar fácil é de entender que tesouros em forma de cascatas nos aguardam.
Do lado direito do miradouro, existe um nicho com a imagem de Nossa Senhora dos Caminhos, após a qual existe um trilho que permite passar à zona mais baixa da crista e descer até à praia fluvial do Penedo Furado, passando pelas cascatas e pela “Bicha Pintada”.


Informações várias sobre a praia fluvial do Penedo Furado
Partamos então para a Praia Fluvial do Penedo Furado; ao chegar temos estacionamento, bar, balneários, parque de merendas e parque infantil.
A praia fluvial do Penedo Furado é pequena e é atravessada pela ribeira de Codes. É o local indicado para famílias com crianças, pois a água tem pouca profundidade. Com as comportas abertas apenas da para molhar os nossos aprazíveis pezinhos.
A paleobiologia e cultos pagãos na praia fluvial do Penedo Furado
O maior motivo de interesse deste local é para nós as suas duas cascatas, e até lá vamos fazer uma pequena caminhada idílica e no seu caminho, muito perto da praia fluvial do Penedo Furado na margem direita da ribeira encontramos numa camada quartzítica um sulco sinuoso serpentiforme com mais de 8 metros de comprimento, 5 cm no máximo de largura e 1 um cm de profundidade.


Ao longo dos milénios da existência do Homem, e antes ainda da geologia ter desvendado o mistério da “Bicha Pintada” em Vila do Rei, muito interesse deve ter espertado as formas mais estranhas dos afloramentos rochosos e vai dai começaram a dar-se as explicações mais fantásticas no domínio do transcendente e muitos destes passaram a ser alvo de litolatria ao longo dos séculos primeiro em cultos pagãos e depois adaptados pela religião cristã. Tal aconteceu por exemplo com a Pedra do Sino em Celorico da Beira ou com a Rocha dos Namorados em São Pedro do Curval, mas também com a nossa Bicha Pintada, um bem patrimonial que deveria ser classificado como Monumento natural ou Imóvel de Interesse Público.
Poucas dúvidas existem de que a forma serpentiforme da “nossa Bicha” deverá ter sido utilizada em cultos totémicos de rituais ofiolátricos as (serpentes) descritas por Avieno e cujo expoente máximo se encontra no Povoado do Baldoeiro em Torre de Moncorvo (aqui não natural mas sulcado no granito pelo Homem).
A Bicha Pintada poderá ter sido um santuário rupestre datado de V a.C, ou seja da idade do Ferro, quando o nosso território foi designado como a Terra de Ofiúsa por Avieno, esta afirmação poderá ter mais fantasia do que realidade que poderá ser comprovado ou desmentido por uma singela campanha arqueológica. Este geosítio é a maior estrutura serpentiforme em litolatria (natural ou construído) da península Ibérica e quiçá da Europa segundo afirmação de Carlos Neto de Carvalho (1).
Mas as lendas por si também são capazes de nos dar alguma informação e eis que aqui nos surge uma lendária “moura” de grande beleza que se penteia com um pente de ouro que deixa antever o seu tesouro e que estabelece uma relação ambígua com um simples pastor (a) que obedece a um padrão que é comum a outras regiões de Portugal. A nossa moura é um génio feminino que aqui reside e guarda um tesouro e que pretende a sua liberdade ou a quebra do seu feitiço. Solicita o jovem a voltar no dia seguinte, mas sem contar a ninguém, para a “desencantar”, dando-lhe um beijo no céu-da-boca recebendo algo de valioso em troca. De volta ao local no dia seguinte, em vez da mulher radiosa encontra uma serpente que o pretende beijar. Amedrontado recusa beijar a serpe, pobre rapaz que aqui perde duas realidades muito valiosas na vida!
As fantásticas mouras com pentes de ouro estão a eternamente ligadas às distintas manifestações da água, como rios-também eles sinuosos, fontes e poços com conotação mágica-religiosa. As mouras surgem quase sempre como guardiãs dos locais de passagem para o interior da terra, os locais “limite”, onde se cria que o sobrenatural podia manifestar-se. Eis portanto o provável templo pagão presumido pela lenda.
Temos aqui a moura sedutora com pente de ouro, a água do rio, o registo serpentiforme na rocha, o passante humilde, e o tesouro-neste caso um bezerro de ouro segundo um painel de azulejos no miradouro do praia fluvial do Penedo Furado.
Bem, o leitor pode questionar onde poderá estar a riqueza; coincidência ou talvez não informamos que a ribeira de Codes teve uma intensa exploração de ouro aluvionar a céu aberto como se constata pelas “conheiras” localizadas ao longo das suas margens e que deveriam defendidas com apego devido a sua importância arqueológica (pode aqui ler um bom artigo sobre as Conheiras de Vila de Rei)
Ai, tanto haveria para dizer sobre as mouras encantadas e queremos acrescentar uma questão poderá abrasar o leitor crente; não será o aparecimento na Cova de Iria em 1917, uma adaptação de uma lenda de moura, tudo nos leva a crer que sim, que a nossa Senhora de Fátima poderá ser uma derivação desfigurada, mas que nos parece evidente, da constância na crença das mouras encantadas.


O gosto pela verdade manda dizer que de concreto apenas sabemos que a Bicha Pintada é um icnofóssil feito num fundo arenoso marinho no período Ordovícico, não por uma serpe, mas por uma trilobite que deixou atrás de si um sulco ou seja uma marca de alimentação, como se constata pela continuidade do registo na bancada, pelas galerias vermiformes subterrâneas e pelas bilobites que observamos quando deambulávamos entre as cascatas da praia fluvial do Penedo Furado.
Para aguçar a sua curiosidade referimos que existem várias marcas de trilobites (cruzianas) com imensas lendas associadas às Bichas Pintadas como por exemplo em Penha Garcia (*) e na Serra da Arada com o Santuário dedicado a São Macário (***) -e este santo pobre penitente até teve de matar uma grande serpente que atormentava a região.
Finalmente as Cascatas da Praia fluvial do Penedo Furado
Chegados a este ponto o leitor paciente talvez esteja a espera de alguma descrição das cascatas, vamos a isto. Quando a ribeira começa a alargar devido a influência da Barragem de Castelo de Bode e perto do fim da crista quartzítica aqui intensamente dobrada, ladeando-a e voltando a entranharmos no seio do quartzito, encontramos uma primeira cascata adaptada para banhos, mas a mais bela esconde-se num recesso onde uma linha de água forma uma bonita cascata, que apesar de pequena (entre 12 a 15 metros, nem sei bem) está envolta num belo ambiente ripícola. Este zona das cascatas também é conhecida como Bufareiras.
Enfim informamos que a praia fluvial do penedo Furado e todo o seu ambiente é um local que vai registar na sua lembrança, quando a visitar.


Referências adicionais:
Neto de Carvalho, C. (2009)- CRUZIANA D’ORBIGNY, 1842 EM PORTUGAL: DA INTERPRETAÇÃO PALEOBIOLÓGICA Á CONSAGRAÇÃO COMO PRODUTO GEOTURÍSTICO.
Carlos Neto de Carvalho tem feito um notável trabalho relacionando a paleontologia com cultos religiosos pagãos. Basta pesquisar no Google o seu nome e ler alguns dos seus trabalhos. Também aqui sobre as marcas de trilobites em Penha Garcia. Pode ler aqui outro seu trabalho.
No blogue Fadas dos Bosques pode ler uma adaptação da Moira Encantada na Bicha Pintada.


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