Ruinas romanas de Pisões (Beja) (**)-O belo mais belo conjunto de banhos do império romano em Portugal

Ruinas romanas de Pisões (Beja) (**)-O belo mais belo conjunto de banhos do império romano em Portugal

Fizemos uma visita recente as Ruínas romanas de Pisões na companhia da Fernanda Carmo, bejense dos sete costados e técnica de Turismo Bejense, de uma grande simpatia e profissionalismo. Para visitar as Ruínas Romanas de Pisões, é necessário primeiro telefonar para o posto de turismo para marcar uma visita, porque o conjunto encontra-se devidamente fechado para impedir a sua vandalização.
As Ruínas Romanas de Pisões, situadas na freguesia de Santiago Maior, em Beja, foram descobertas na década de 1960, quando se realizavam no terreno trabalhos agrícolas, dando-se início imediato à sua investigação arqueológica.
Trata-se de uma das mais monumentais villas romanas de Portugal, fundada no século I e abandonada no século IV. Foi objeto de escavações arqueológicas realizadas entre 1967 e 1981, que, para além de terem revelado diversas estruturas, permitiram recolher um vasto espólio formado por cerâmica de uso corrente, cerâmica do tipo sigilatta, mosaicos, frisos, vidros, bronzes, moedas, pinturas murais, entre outros artefactos. Os trabalhos incidiram na zona urbana, faltando ainda escavar a parte rústica. Nas escavações foram também recuperados alguns elementos que apontam para uma continuidade até à ocupação da Península Ibérica pelos muçulmanos.

ruínas romanas pisões peristilo

ruínas romanas de pisões peristilo com impluvium

É possível observar-se a riqueza do proprietário e o gosto da época quer no revestimento dos pavimentos, com mosaicos e mármores, quer no das paredes, com pintura mural, da qual ainda se conservam alguns vestígios.
A villa ocupa uma área de aproximadamente 30 mil metros quadrados, estando situada numa zona aplanada que se prolonga por uma suave encosta até à ribeira da Chaminé.
O modelo arquitetónico está centrado peristilo, com um tanque decorativo central (impluvium) e uma colunata envolvente, em torno do qual se distribuem as cerca de quarenta divisões da casa.
A fachada principal da casa abria para um grande piscina exterior, para além do qual se situam mausoléus familiares, tendo sido, até ao momento, escavados três.
Os mosaicos, apresentam belas composições geométricas e naturalistas, com destaque para a representação de aves (pombas) e animais marinhos (uma enguia e um peixe bojudo), sendo tratados a preto e branco os mais arcaicos, e policromos e de tesselas maiores e maior riqueza plástica os mais recentes, em ambos os casos apresentando motivos zoomórficos e geométricos.

Ruínas Romanas de Pisões

Ruínas Romanas de Pisões- Pombas, o Inverno e a Medusa

Quantos aos zoomórficos regista-se numa sala a existência de pombas em diferentes registo o que nos pode indicar uma sala de culto, quem sabe já cristão.
“Em Pisões o programa iconográfico escolhido para a chamada “sala das duas pombas” exprime uma sintaxe ornamental profundamente ligada à terra e à Natureza, que recorre a elementos da Natureza observada quotidianamente no local para representar o ciclo do tempo, para a Primavera uma cesta repleta de botões de rosa.
Para o Verão uma ave pernalta (cegonha?) junto do ninho, protegendo as duas pequenas aves que em breve poderão voar. O Outono, com aves debicando um cacho de uvas e o Inverno, à entrada da sala e numa posição de relevo, com duas pombas ladeando um recipiente cheio de água, imprescindível fonte de vida, sobretudo e também naquela região. Por cima desta representação, uma cabeça de medusa, símbolo apotropeico de proteção.
Um programa iconográfico único até hoje, e que levanta um pouco o véu sobre a filosofia de vida dos senhores da terra.1
Também a villa romana do Rabaçal tem um belíssimo conjunto de mosaicos dedicados às quatro estações.
As aves são pombas ligadas à espiritualidade, a ave passou por um grande processo de cristianização.” Na Grécia, as sacerdotisas de Zeus eram conhecidas como “pombas”. Elas são citadas por Ovídio e por Homero. A pomba foi associada com a Afrodite grega (Vênus dos romanos), simbolizando o erotismo e a sensualidade. Contudo, na arte cristã, essa imagem é gradativamente suprimida, sendo substituída pela imagem da mulher pura e casta, exemplificada pela Virgem Maria, antítese Vénus. Na arte cristã, a pomba figura já nas catacumbas romanas nos primórdios do cristianismo. Representou o espírito divino de Jesus, a terceira pessoa da Santíssima Trindade: o Espírito Santo. O pássaro é aquele que leva a mensagem de um novo início para a Arca de Noé: o fim do Dilúvio e a promessa de uma nova vida. A pomba, símbolo da paz e da elevação espiritual, representou a figura da Virgem Maria e também da própria Igreja. No Novo Testamento, em Lucas 2:24, aparece o sacrifício de pombas que simbolizam a purificação de Maria depois do nascimento de Jesus, “e se ofereceu em sacrifício, como estava na Lei do Senhor, um par de pequenas pombas”. Todas as restantes salas têm mosaicos geométricos, mas a geometria romana, não é apenas um apelo a ordem e a beleza, mas também uma referência a aspetos simbólicos. Pena é que os estuques de frescos não possibilitem a sua legibilidade.
Nas Ruínas Romanas de Pisões, destaca-se o conjunto relacionado com a água. Próximo da casa situam-se as termas, que são um dos mais relevantes exemplares de banhos privados encontrados em território português, e cujos compartimentos se encontram num notável estado de conservação, como todo o sistema de aquecimento dos mesmos, possibilitando a circulação de ar quente entre paredes duplas e sob os pavimentos das salas, que assentam num complexo sistema de arcaria em tijolo, denominado hipocausto. As piscinas também estão maravilhosamente bem preservadas.
O conjunto balneário é de Portugal, constituído por piscinas aquecidas e um hipocausto que com pequenos arranjos ainda hoje seria funcional, é realmente impressivo entrarmos no seu, porque apela ao que de melhor existe no ser humano, o engenho, a limpeza e o prazer.
Para além do raro impluvium no peristilo, temos uma grande piscina, quase uma piscina olímpica (uma piscina de grande dimensões (40 x 8,30 m.), com 6 degraus de acesso) e que se enchesse de água estaria operacional e que separa a villa dos mausoléus, quase que a replicar um rio que separa a vida da morte.

ruínas romanas pisões piscina

Ruínas Romanas de Pisões-Piscina quase olímpica

Próximo das atuais ruínas, do outro lado do atual caminho de acesso ao sítio, podemos encontrar a barragem romana, que represava a água da ribeira da Chaminé alimentando a villa que serviria para o abastecimento de água para rega, para a confeção de alimentos ou ainda para tanques, piscina e termas, de dimensões apreciáveis.
Esta barragem foi construída em alvenaria de pedra e argamassa e possuía uma albufeira com cerca de 340 metros de comprimento, 31300 metros quadrados de área inundada, armazenando um volume de água de 38000 metros cúbicos.
Ao contrário do que acontece na maioria dos sítios romanos, onde não existem dados concretos sobre os seus habitantes, em Pisões foi encontrado um pequeno altar ou em mármore devotado a Salus, a deusa da felicidade e da saúde. Aí encontra-se uma inscrição que revela que o altar foi dedicado pelo escravo Catulo a Gaio Atílio Cordo. Assim, é viável que este nome corresponda àquele que era o proprietário da villa em determinado momento do século I d.C., sendo Catulo um dos seus escravos.

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Ara dedicada a Atilio Cordo

hipocausto beja

Ruínas Romanas de Pisões com Rita Miguel, muito pensativa e curiosa

Da villa rústica ainda não escavada, podem apenas observar-se as pedras do lagar, com um aspeto estético interessante. As áreas diretamente relacionadas com a exploração agrícola, como as habitações dos criados e armazéns – a chamada pars rustica – e os celeiros e lagares – a pars fructuaria, encontram-se, ainda hoje, por escavar.
A villa Romana dos Pisões foi classificada como imóvel de Interesse Público em 1970 e é uma das mais notáveis villas romanas portuguesas. As ruínas romanas de Pisões encontram-se muito perto de Pax Julia, esta era uma das mais importantes cidades romanas do atual Portugal e “a capital do “conventus pacencis”, ou seja, da região político-administrativa e jurídica que ocupava toda a zona a Sul do Tejo do atual território português. Amigo vá a Beja e aproveite ainda para ver as ruínas romanas de São Cucufate em Vila de Frades (Vidigueira), mas cuidado com o calor do estio, porque não foi por acaso que na Villa Romana de Pisões foi construída tão belo conjunto de piscinas.
Referências adicionais:
1-SIMBOLOGIA ANIMAL: A POMBA E O CORVO NOS BESTIÁRIOS MEDIEVAIS, de Tiago de Oliveira Bruinelli (2009)
2-Do Portugal Romano com o seguinte artigo, sobre a villa rústica e o campo.

Outono-ruínas romanas pisões mosaicos

ruínas romanas pax julia mosaicos

Ruínas romanas de Pisões- Corredor

 

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Ruínas romanas de Pisões-enguia e peixe

 

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Ruínas romanas de Pisões-Frescos

 

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Ruínas romanas de Pisões-Hipocausto

 

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Ruínas Romanas de Pisões

 

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Villa-romana-de-Pisões-1971

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