Espaço sagrado de São Pedro de Vir-a-Corça (Monsanto-Idanha-a-Nova) (***)

Espaço sagrado de  São Pedro de Vir-a-Corça (Monsanto-Idanha-a-Nova) (***)

4 Razões para visitar São Pedro de Vir-a-Corça

 

- Por se situar na mais bela aldeia de Portugal

-Por ser um lugar mágico e místico na paisagem espiritual de Portugal

-Pela imensa beleza do lugar

-Porque é um local onde pode firmar a maior conquista do ser humano.

No sopé da encosta escarpada sobre a qual se ergue a Aldeia Histórica de Monsanto (***) encontra-se a Ermida de São Pedro de Vir/Ver-a-Corça, completamente isolada num bosque de sobreiros e rodeada por colossos blocos graníticos dispostos caoticamente -terá aqui o caos uma razão para existir ou o homem por motivos mágicos moldou a paisagem?
Poderíamos incluir o local como fazendo parte do conjunto histórico, “mistérico” e de beleza impar que é o Mons Sanctus – uma das mais belas aldeias europeias. Mas a aldeia está lá em cima, erguida no topo de uma imponente inselberg granítico com 758 metros de altitude, que declina em escarpa abrupta em cerca de 300 m para o lugar que agora visitamos; cá em baixo olhamos embevecidos para esta impressionante fortaleza medieval, que daqui, parece uma construção mágica associada aos gigantes dos romances de cavalaria.
O lugar de São Pedro de Vir-a-Corça  é esplêndido, marcado pela arquitectura rude e singela, mas inesperada, daquela capela românica, pelo bosquete sublime e também pelas enormes fragas boleadas que ampliam a monumentalidade do lugar e a sua fusão entre a natureza e o sagrado.
A igreja, que se constitui desde cedo como local de romaria e de feira, pelo menos desde os finais do século XIII (Dom Dinis concede carta de feira em 1308, consagrando provavelmente um uso existente), foi fundada entre os séculos XII e XIII de veneração associada ao São Pedro. Em 1613 constituir-se-á mesmo uma irmandade de São Pedro. Possui planta rectangular, com três naves definidas por quatro colunas jónicas, duas de cada lado e com abside e absidíolos rectangulares, denunciados volumetricamente pelo exterior. Também é muito curioso as 12 saliências rochosas na parede sul, que alguns autores creem ser um antigo relógio de sol.
Na fachada uma  rosácea emoldurada por motivos geométricos com quadrifólio central e 8 arcos trilobados radiais. A norte, encostada a capela, existem sepulturas medievais cavadas na rocha.

são pedro de vir a corça (2)
Terá sido São Pedro de Vir-a-Corça um local semelhante ao Santuário Pagão de Panoias (***)?
A torre sineira defronte, muito pura, em arco de volta perfeita, sobrepuja-se a grande bola granítica. Ao lado, numa reentrância erosiva, aponta-se o local de uma gruta eremítica. Por cima grandes cavidades, que poderão ser lagaretas ou tanques de ablução a deuses pré-históricos.
Alguns destes pios espalham-se pelos afloramentos, alguns isolados outros conjugados, em depressões circulares ou poligonais decimétricas de origem antropormófica, alguns com cruzes gravadas (a posterior sacralização objecto pagão?); outros são claros gnammas, que poderão ter tido utilização humana.
Podermos estar em presença de algo semelhante ao Santuário de Panóias (***)? Ou serão simples tanques (reu)tilizados de apoio à feira medieval? ou serão simples lagaretas de vinho e azeite?ou, o que me parece mais acertado terem tido todas aquelas utilizações em diferentes épocas.
Em São Pedro de Vir-a-Corça quantidades imensas de cerâmica comum prendem-se aos nossos pés arrastados, prováveis resto de utensílios usados para transporte dos produtos dos feirantes, alguma mesmo muito tosca, talvez mais coeva de tempos medievais.

São Pedro de Vir-a-Corça (Monsanto)

Em muitos casos, este geólogo, não destrinça aquilo que foi feito por mão humana daquilo que foi operado pelo alargamento natural de fracturas pela água, o “nosso” grande escultor!
Apetece-me brincar aos eremitas, esconder-me nestes estreitos antros naturais (alguns afeiçoados) como o nosso anacoreta Amador, e ficar aqui para sempre afastados da espuma dos dias de hoje.
A Lenda do Santo Amador, Diana e Flidías em São Pedro de Vir-a-Corça
O topónimo do local está relacionado com a lenda da criança salva pelo demónio por Santo Amador, que ali se refugiava do mundo, e que a amamentou com leite de corça quatro vezes ao dia.
Na tradição popular, São Pedro é transformado em eremita. Assim se compreende que uma das mais lindas ermidas, numa das mais lindas paisagens, seja dedicada a São Pedro. Será São Pedro o Santo Amador?
A corça é consagrada a Diana (Artémis grega), a rainha dos bosques, que percorre todos os recantos dos prados, montes e vales. Diana era cultuada em templos rústicos nas florestas, como este, onde os caçadores lhe ofereciam sacrifícios.
Também associo Flidías ao local. Esta era a Deusa celta da sensualidade e Senhora das Florestas- portanto sua protectora. Um dos seus símbolos é a…corça.

São pedro de Vir a Corça

A magia de São pedro de Vir a Corça

Este texto que se segue foi adaptado do site das Casas do Cruzeiro (aqui) do amigo António, em Marialva, que uma vez nos salvou de dormir ao relento em Cidadelhe (Pinhel), mas adiante.

Esta lenda conta-nos a história de Ricarda, uma mulher com um feitio horrível. Toda a gente se afastava dela, família e amigos, não havia quem a conseguisse aturar. A única pessoa que a olhava com bondade era um santo homem que ninguém sabia de onde viera e que habitava uma gruta escavada numa rocha. Ninguém sabia o seu nome mas como ele dizia que amava a Deus e a tudo o que existia na natureza, ficou conhecido por Amador. Como era sábio e de uma grande bondade, muitos eram os que o visitavam para pedir conselhos ou conversar com ele. Como pagamento recebia água fresca, pão ou muito excecionalmente uma peça de fruta. Ricarda também visitava Amador mas nunca mudava de atitude. Queixava-se de toda a gente, em resumo estava sempre de mal com a vida. Tanto fez, tantos inimigos arranjou que um dia teve de partir para longe. Quando voltou trazia com ela um filho pequeno, mas a mesma raiva no coração. Como era de esperar o único que a recebeu com bondade foi Amador. Interessou-se pelo menino e pediu-lhe que o deixasse baptizar, mas Ricarda respondeu torto como de costume. Praguejava também contra a criança dizendo que o menino era chorão e que em vez de amigos mais depressa arranjaria diabos que o levassem para o inferno. Ao dizer estas palavras, levantou-se um vendaval, o sol desapareceu atrás de uma nuvem avermelhada e ouviram-se gargalhadas sinistras. Um bando de demónios levou o menino e na mesma altura o chão abriu-se e “engoliu” a amarga Ricarda. Amador rezou com tal fé pelo menino que os demónios o largaram em cima de uma rocha, sem um único arranhão. O bondoso homem recolheu o menino e tratou dele, contando com a ajuda de uma corça que aparecia para dar leite ao menino sempre que este tinha fome. E a corça nunca faltou e o menino foi crescendo sempre junto do seu amigo a quem se afeiçoou. Ambos adquiriram a fama de santos e junto a gruta onde viviam ergueu-se uma capela que ainda hoje lá está e se chama Ermida de São Pedro de Vir-a-Corça.

Por sorte ou recompensa deste destemido viajante (que aqui tinha estado por duas vezes com rodeado de tempo, silêncio e solidão) viu-se à terceira vez acompanhado pelo melhor abraço da sua vida e que tanto tempo durou  e com tal enleio que jamais poderá esqueçer; se não era Diana ou Flídias, perto lá andava tão bonita e benigna divindade. É caso para dizer que à terceira é de vez.
Este espaço, com os sons da natureza, o verde, Diana, Flídias, o gigantesco caos de blocos dos barrocos graníticos, a capela românica, os tanques, gnamamas, e o sombreado do maravilhosos chaparral, convida-nos à introspecção e para os crentes no além, em sentido lato, numa experiência religiosa única.
Termino com a frase de Maria Adelaide Neto Salvado que rtirada do texto de Paulo Pereira.
“ Em São Pedro de Vir-a-Corça perdura, dum modo diríamos palpável, o espírito do lugar, o geniu loci, que conferiu a este lugar a particularidade de Santuário, pois aí se respira hoje, muito densamente, esse sentimento do Sagrado.”
Bibliografia: PEREIRA, Paulo – Enigmas Lugares Mágicos de Portugal. Templários e Templarismo. Vol V III , Círculo de Leitores, 2005.


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