Templo romano em Santana do Campo (Arraiolos) (*) mais um mistério na boa terra Alentejana e em que ainda se fala nos cruciformes da Pedra Gamela

Templo romano em Santana do Campo (Arraiolos) (*) mais um mistério na boa terra Alentejana e em que ainda se fala nos cruciformes da Pedra  Gamela

Depois de visitar o castelo de Arraiolos e o convento dos Lóios (*), que é atualmente uma ótima unidade hoteleira fomos a uma pequena aldeia , no concelho de Arraiolos  para observar o Templo romano de Santana do Campo.
Antes de entrar nos aspetos técnicos daquilo que nos traz aqui, tenho a dizer que não sou alentejano por nascimento, mas alentejano primaveril, a que dou um toque bem urbano. Aqui a solidão e a quietude da planície dão-me espiritualidade, tranquilidade e ainda mais paciência. Não se nasce alentejano, é-se alentejano. E eu decidi ser um alentejano primaveril, ai que pensamento cómodo e risível, atendendo a quero pouco estar aqui no Verão.

Na povoação, está um monumento singular -o templo romano de Santana do Campo, incorporado numa igreja e que merece a nossa atenção.
O Templo romano de Santana do Campo é um dos exemplos de edificações romanas incorporadas em outros imoveis que podem ser religiosos, militares (ex- Templo Romano de Idanha a Velha, inserida na vetusta Torre templária); civis como o templo romano de Marialva (Meda) inserida num edifício de origem medieval. Estes templos aproveitam não só as estruturas existente como também o simbolismo do local.
A igreja foi construída durante o século XV, deduzida da imagem da padroeira, Senhora de Santa Ana. Tem ainda no seu pórtico a data de 1715 que dever ter correspondido a uma importante remodelação no século XVIII.

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Mas o que nos interessa são as fachadas N., S. e E. marcadas por sequências de pilares graníticos de silharia almofadada, com secção quadrada, que reforçam os muros de imponente construção romana. Num quintal anexo também se observa silharia romana.
Na acta da sessão de uma sessão de 1734 da Academia Real da História Portuguesa, lê-se que o padre Frei Afonso da Madre de Deus Guerreiro informou os seus confrades de que lograra ler, numa das toscas pedras metidas na parede exterior da igreja de Santana do Campo, uns dizeres pouco compreensíveis:
CARNEO
CALANTICE
SI CAECILIA
OR NI CUIS
R • CUIS
É o Padre Luís Cardoso, no seu Diccionario Geographico (I, 1747 ) as  desenha (o que é muito raro no seu livro) e diz-nos que a paróquia tem por orago Santana… E a capela-mor e a parte da Igreja feita de pedras de demarcada grandeza, lavrada, e fabricada; tem cal até ao telhado e dizem fora obra dos romanos, o que se parece se prova de uma pedra mármore, onde se vêm umas letras latinas, nesta forma:
AFCA
NANII
IERME
LAVS
Está outro pedaço de pedra, que parece ser de algum edifício, na qual, por estar quebrado se vêm somente as letras seguintes:
CARNEO
CALANTICE
Refira-se que em 1916 o arqueólogo Vergílio Correia estudou o edifício, confirmou a importância das milenárias ruínas e admitiu, com bases científicas as suas características, projetou uma planta conjetural e atribuiu, ao TEMPLO, o culto de “Carneus”, mas na verdade sabemos lá quem é este tal de Carneus!
Em 1980 foi ainda recolhido, na sequência de trabalhos de saneamento básico, diverso material arqueológico e detetou-se restos de um muro que poderia pertencer ao podium do templo romano de Santana do Campo.
Tenho lido que o templo romano de Santana do Campo terá sido edificado entre os séculos II e III d, mas será esta a data correta?
Talvez seja aceitável defender que a estrutura romana poderia corresponder a um templo romano de uma pequena localidade (vicus), pela sua dimensão e estrutura mas também pela epigrafia nela descoberta. As duas inscrições que se encontraram nas paredes da igreja estão atualmente perdidas, mas cujas transcrições se consideram fiáveis, numa gravou-se a invocação “Carneus Calanticensis” (1)

Templo romano de Santana do campo (Arraiolos)

Templo romano de Santana do campo (Arraiolos)

No teónimo Carneo Calanticensi identicam-se dois elementos distintos:
o primeiro, o nome da divindade, cuja etimologia chegou a ser sugestivamente relacionada com *karno “monte de pedras”, abundantemente representada nas línguas célticas; o segundo corresponde a um epíteto de evidente, uma vez que a terminação -ensis indica um lugar toponímico. Por esse facto se deduz o que a atual Santana do Campo seria, na antiguidade a pequena localidade romana vicus de Calantica.
Esta igreja constituí um exemplo de uma edificação existente no nosso território que reaproveitaram e reutilizaram um espaço há muito sacralizado, ao mesmo tempo que se apropriaram de um certo simbolismo mágico-religioso coevo.

O culto da Fertilidade de Santa Ana
Uma nota ainda para Santa Ana, mãe de Maria e Avó de Jesus que em vários locais o mundo católico se apropriou, pois a Santa Ana, pode ser um culto divinatório da fertilidade seja da terra ou da mulher, pois a fecundidade foi fator importante e determinante para grupos e sociedades. O poder de gerar, alimentar e renovar-se está diretamente ligado ao feminino. Quanto aos atributos da divindade, ela seria tutelar de Calantica. Se podermos relacioná-lo com o deus gaulês Cernunnos, deus da agricultura – que era invocada para se obterem boas colheitas, será difícil garanti-lo, dada a escassez dos testemunhos mas se assim haveria um elo de ligação entre Santa Ana e o templo romano de Santana do Campo.

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A Pedra das Gamelas, fenómeno de litolatria
Para adensar ainda mais o mistério muito do templo romano de Santana do Campo  próximo encontra-se a Pedra das Gamelas, monumento de litolatria que merece a nossa atenção (da mesma forma que é a Rocha dos Namorados em São Pedro do Curval (ler aqui)), por ter no cimo umas covas depressões circulares que deveriam ter uma função de altares rupestres para rituais pagão, com idade desconhecida e por ter ainda um conjunto de cruzes insculpidas na rocha. Não é certo de quando a origem destes cruciformes, a hipótese de estas cruzes terem sido postas sob a alçada do clero para cristianizar o rochedo parece pouco provável, pois normalmente quando isso acontecia esculpia-se ou enxertava-se uma cruz bem visível de maiores dimensões, como é exemplo a já referida “Pedra dos Namorados”, logo estes cruciformes podem ter sido gravados desde o Neolítico ao Romano, fica a dúvida. A cruz latina tem um simbolismo esotérico, com origem muito anterior ao cristianismo, relacionado com a “morte-ressurreição” da iniciação. A pedra da Talisca, a uns 300m desta, contém além de uma série cruzes, duas “patas de ganso” encimadas por uma cruz. Os motivos gravados nos Penedos das Gamelas e Taliscas apresentam semelhanças com os conjuntos de gravuras, com o Penedo das Almoinhas em Brotas. Que relação existirá entre estes penedos e templo romano de Santana do Campo?
O templo romano de Santana do Campo está classificado como Monumento Nacional.

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Referências adicionais:
1-ENCARNAÇÃO, José d’ – Divindades indígenas – os númenes das nossas raízes. In LOPES, Bruno, org. – Conversas à volta de Santana do Campo. Lisboa : Associação Social Unidos de Santana do Campo, 2010. p. 27-38
2- As fotografias do Penedo das Gamelas foram retiradas do simpático Blogue de Francisca M. de seu nome Sulidão (aqui).
3-Alumas notas acerca do templo romano de Santana do Campo foram retiradas do site do património cultural de Portugal, bem como as imagens apreto e branco.
(aqui)

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