Conjunto patrimonial e termas de Longroiva (Mêda) (*)-Águas milagrosas em território templário

Na minha penúltima visita a Longroiva, no concelho da Mêda, em 2008, tive como cicerone o pároco António Amante, de muito saber e paciência para tão interrogador visitante, faleceria em 2010,  para ele desejo um benfazejo descanso.

Longroiva é uma aldeia bonita com umas magníficas termas, um castelo templário fundado por Gualdim Pais e outro património interessante como duas igrejas e uma idílica e lindíssima fonte manuelina.
As notáveis termas de Longroiva, bem como as termas da Fonte Santa (Almeida) (*) e do Cró (Sabugal) (*) foram recuperadas para dinamizarem o turismo na Beira Interior, tendo hoje condições magníficas para tratamentos. Nas primeiras trabalhei intensamente em hidrogeologia com estórias pessoais, sendo por isso Longroiva uma localidade que faz parte da minha geografia sentimental; as restantes termas também as conheci bastante bem, mais como visitante e curioso do que como cientista.

 As estelas de Longroiva
A povoação teve ocupação remota, como indicia a descoberta, da chamada estela de Longroiva em 1966,  no sítio do Cruzeiro Velho, à entrada da aldeia das Quintãs numa chã, em plena depressão tectónica de Longroiva. Nela está representada uma inscultura de um guerreiro da idade do Bronze, no mesmo local foram encontradas mais recentemente outras duas estelas.
Por todo o aro de Longroiva abundam artefactos cerâmicos e vestígios de fundição de ferro e estanho, mas os mais importantes vestígios arqueológicos são romanos.
Longroiva Romana
Depois dos meus estudos voltei a Longroiva mais vezes. Numa vez o nosso bom padre levou-me à capela de origem templária da Senhora do Torrão para ver o seu altar que tem uma ara romana que narra o seguinte. “Quinto Júlio Montagno Gémina Félix, cumpriu de boa vontade o seu voto a Bande Longróbico”. Quinto Júlio, segundo agradecia a uma divindade indígena. A Gémina Félix não é mais nem menos que a Sétima Legião criada por Galba, que chegou a ser Imperador por alguns meses, que caminhou contra o Imperador Nero, estando na base da derrota deste. Como Galba foi o mentor da VII Legião esta também era chamada de Legião Galbiana, que seria durante séculos a única legião romana acantonada na Península Ibérica, cujo quartel central se situava em Léon e de que existem inúmeros vestígios em Portugal. Por exemplo a VII Legião construiu a ponte romana sobre o Rio Tâmega, em Chaves, então chamada de Aquae Flaviae, ali estacionados durante o reinado de Trajano.  Um dos melhores grupos rock de alta cultura portugueses, Sétima Legião recebeu este nome em sua homenagem.

Compreende-se facilmente a origem ao topónimo da localidade. Seria Longróbico um parente de Bormanico (deus indígena associado as fontes termais)?O certo é que este espaço provavelmente devido as espantosas águas termais seria um local de encontro para tratamentos e também por isso santificado.
Longroiva seria provavelmente um castellum romano, onde estaria o nosso Quinto Julio Montagno, aproveitando talvez um povoado. Poderia esta fortificação defender os filões de sulfuretos existentes ou mesmo as notáveis nascentes minero-medicinais do local?

Quase de certeza estas águas notáveis seriam aproveitadas pelos romanos, podendo mesmo ser uma nascente santificada e venerada religiosamente pelos romanos.

Os banhos sempre estiveram ligados ao culto da senhora do Torrão, padroeira da freguesia e, nesse sentido, o povo diz que cada banho tomado no dia 8 de setembro, dia dedicado à Santa, equivale a 8.

2169.pt

Ainda na igreja matriz se encontra  se encontra- embutida na parede lateral direita de quem entra pela porta principal da igreja matriz de Longroiva (concelho  de Meda), com o letreiro na horizontal, uma epígrafe romana de granito e que diz “Potito, filho de Reburro, cumpriu o voto aos Lumbos”.

Longroiva Templária

À época da Reconquista cristãs da Península Ibérica, esta povoação e seu castelo encontram-se relacionados entre os domínios legados ao Mosteiro de Guimarães. Mais tarde o mosteiro pertencia ao Condado Portucalense, e consequentemente os do reino de Portugal.

Neste período, ocorreu um e surto de povoamento na região, atribuído a D. Egas Gosendes de Baião, que se acredita tenha outorgado uma Carta de Foral a Longroiva desde 1126, e posteriormente, a Fernão Mendes de Bragança (esposo da infanta Sancha Henriques e, portanto, cunhado de D. Afonso Henriques), que teria doado estes domínios de Longroiva à Ordem dos Templários (1145), sendo Mestre Hugo Martonio (ou Hugo Martins, em português).Este castelo de Longroiva (de defesa passiva, apresenta uma arquitetura militar, românica e gótica.

Só passados cerca de 30 anos, em 1174, seria introduzida por D. Gualdim Pais uma mudança significativa na estrutura primitiva, a torre de menagem. Esta tem uma epigrafe da sua fundação que de forma atualizada nos diz que nos diz.

“Na era de César de 1214 (ou seja, no ano de 1176 da era de Cristo) Gualdim, chefe dos cavaleiros portugueses do templo, edificou esta torre com os seus irmãos, reinando Afonso, rei de Portugal”.

“[in e]RA : M CC : II MAGISTER GALD INus : CONDUTOR : PORTUGALENSIUM . MILITUM . TEmPLI . REGNA[nt]E ALFO

(n)SO : PORTUGALE(n)SIUm REG(e) CUM . MILITIBUS . SUIS . EDIFICAVIT HANC . TURRIS”

Ao visionar o pequeno castelo, com a torre de Menagem, evoco estes cavaleiros, de forte acervo esotérico, e vem-me  à memória a atroz sexta-feira 13 de Outubro de 1307 dinamizada pelo Rei de França, Filipe IV o Belo e pelo Papa Clemente V; o símbolo de Baphomet; o pentáculo- como símbolo de espiritualidade humana; as maldições concretizadas do Grão-mestre Jacques Molay; a demanda do Santo Graal; a origem da maçonaria; os descobrimentos Portugueses; a descoberta da América por Miguel Corte Real, cavaleiro da Ordem de Cristo em 1502,  a majestosa Charola no Convento de Cristo (*****) em Tomar e tantos outros factos.

Longroiva tem também o mais antigo hurdício de Portugal, precisamente na torre de menagem, que é uma grade de madeira que coroava as torres ou os panos das muralhas que permitiam o tiro vertical com orifícios onde se encaixavam as traves de madeira.

Para além do hurdício os templários impuseram o alambor como se pode ver nas muralhas de Soure, de Pombal e Tomar, mas muito principalmente a Torre de Menagem. Esta implementava-se no meio do recinto, no ponto da cota mais elevada, erguendo-se em altura para permitir o tiro direto par ao exterior sem prejuízo da existência das muralhas, com planta retangular ou quadrangular, elevavam-se a mais de 10 metros, poderia ser superior a 20 metros, assentando em afloramentos rochosos. O andar térreo não tinha aberturas, sendo que o acesso a uma cota superior se fazia por escadas de madeira móvel, que em caso de perigo poderia ser retirada, isolando a torre no interior do próprio recinto.

A torre de menagem transformou-se num símbolo de poder e uma referência iconográfica proeminente. Como se disse os exemplares mais antigos remontam aos meados do século XII e estão associados aos Templários, designadamente as torres de menagem de Tomar (1160), Pombal (1171), Penas Róias (1172) e Longroiva (1174), todas elas datadas com inscrições da sua inauguração no mestrado de

Tenho de confessar que quando observo um signo ou local relacionado com os cavaleiros do Templo, sinto que estou no limiar invisível de uma indecifrável transcendência e como estamos todos a precisar de uma sã espiritualidade.

Dinis (1279-1325) concedeu foral à vila, e, em 1304, mandou fazer alguns reparos no castelo. Ainda em seu reinado, diante da extinção da Ordem, os domínios da povoação e seu castelo foram incorporados ao património da Ordem de Cristo (1319).
Tem no seu recinto um cemitério, como em tantos outros castelos, o que de si tem importância histórica e é quase um monumento em si.

Longroiva, conjunto patrimonial

Longroiva

Longroiva está ainda pessoalmente associado às minhas primeiras campanhas de campo em trabalho de geologia. As termas estão requalificadas, são já bem conhecidas, e é com algum orgulho que vi levantar o novo balneário.
As Termas de Longroiva o novo balneário e indicações terapêuticas
O furo de água mineral que datava de 1975, com 20 metros de profundidade não estava nas melhores condições, por isso foi feito um novo furo de 215 metros de profundidade perfeitamente galvanizado e betonado.
Em virtude deste furo existe hoje um caudal abundante (6,4 l/s ou seja 23040 l/h), de água sulfúrea e fluoretada que brota a 46 graus e são especialmente notáveis, pelo seu equilibrado quimismo e pela riqueza em flúor; sendo recomendadas para tratamentos do foro respiratório, dermatoses, musculo-esquléticos e degenerativas: entre as diversas maleitas que podem ser tratadas destacam-se a rino-sinusute, a psoríase, lombalgias, artites reumatóides e osteoartrose.

Com as novas instalações e um magnífico hotel o número de aquistas aumentou. A construção do balneário termal de Longroiva integrou-se harmoniosa na zona envolvente.
Conta a lenda que a Rainha Santa Isabel se terá banhado nas águas sulfurosas de Longroiva, aquando da sua vinda de Aragão para casar, em Trancoso (***), com D. Dinis.
Continuando a falar de águas nobres, visiono do outeiro uma brecha geológica que aloja uma das águas mais interessantes que até agora conheci. É uma autêntica liga metálica “líquida”, atentando aos seus teores elevadíssimos em chumbo, magnésio, ferro, molibdénio…; obviamente que a água mineraliza ao atravessar filões de sulfuretos. As águas são as mais ácidas de Portugal, perfeitamente intragáveis e perigosas para as incautas bestas. O povo chama esta curiosidade científica “as aguas purgativas”. Na idade média eram diluídas umas gotinhas num jarro de água para cura das enfermidades estomacais e anemias!? Depois de alguns desarranjos as águas foram seladas.
Também visionamos o Vale da Veiga, que não é mais do que a Falha da Vilariça, aqui também instalada, o didático grabben possibilitou a existência de uma várzea de grande fertilidade. Esta megafratura estabelece o contacto entre a Meseta Ibérica e as Montanhas Ocidentais Portuguesas. Quase todas as segundas feiras, ás 8h30 da manhã a “cumprimentei” no ano de 2005, na Ribeira de Massueime em Avelãs de Ambom (Guarda). O leitor também deve conhecer o vale do Zêzere do U na Serra da Estrela (***) em Manteigas, e que foi candidato a uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, pois informo-o desde já que é a continuação daquela fratura.
No cabeço contíguo ao castelo, a alguma distância, vejo o local da forca, suficientemente afastada para não infecionar a povoação, mas visível a todos os olhares para  servir de aviso aos potenciais prevaricadores. Eu que sou um viajante quase banal questiono-me no número de desgraçados que ali pereceram e até os crimes que cometeram!
Longroiva possui ainda outro património edificado interessante: a Igreja Matriz (com a sua preciosa salva de cobre de Nuremberga doada pelo rei Dom Manuel I), a capela da Senhora do Torrão, as sepulturas antropomórficas, o solar dos Marqueses de Roriz, a idílica fonte manuelina da Concelha ou a estrada romana vinda de Marialva (civitas Aravum) para Calábria e Astroga.
Longroiva tem um conjunto patrimonial muito estimável e agora com o moderno balneário da aldeia termal, merece todo o nosso carinho, pois poderá ser um projeto âncora para o concelho da Meda, no sentido da sua divulgação e promoção.

Referências adicionais: Castelos de Portugal-Luís Correia-2011

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2 comentários Conjunto patrimonial e termas de Longroiva (Mêda) (*)-Águas milagrosas em território templário

  1. J.M.S.M says:

    Amigo Ruben ainda bem que a pessoas como tu que reparam no nosso património, fico contente por te ver por estas bandas, mas sabes mais vale acordarmos tarde do que nunca. J.M.S.M

  2. Regis Motta says:

    Desejo de longa data, fui conhecer Longroiva, onde nasceu meu querido avô há mais de 100 anos. Que aldeia encantadora! Adorei também Castelo Rodrigo, será preciso voltar a Portugal e conhecer mais de suas aldeias históricas! Saudações do Brasil!

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