Torre da Cerca de Santa Cruz (Coimbra) (**) (Demolida)

Torre da Cerca de Santa Cruz (Coimbra) (**) (Demolida)

Coimbra foi uma cidade que viu ao longo do século XX o seu património monumental ser parcialmente destruído. A românica torre de Santa Cruz é um exemplo. A torre fazia parte da cerca defensiva, que incluía outras torres  do vasto e importante mosteiro de Santa Cruz, pertencente a ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho.

Torre de Santa Cruz- coimbra antiga

Torre de Santa Cruz

A Torre de Santa Cruz era ladeada pelo celeiro do mosteiro, onde hoje se encontra a esquadra da PSP,  mesmo em frente ficava o claustro da enfermaria, cuja parte central é o Jardim da Manga (**), e onde se encontra a escola secundária Jaime Cortesão era a vasta e importante enfermaria.

A torre de Santa Cruz situava-se onde hoje se encontra a fonte Nova ou dos Judeus e a escadaria de Montarroio.

Torre de Santa Cruz-Coimbra-limpeza de entulho

Torre de Santa Cruz-Coimbra-limpeza de entulho

A FONTE DOS JUDEUS

Já existia uma fonte com o nome fonte dos Judeus em 1137, naturalmente por se situar junto da judiaria. No entanto por um documento de 1429, é designada como fonte nova. Como era equipamento importante, porque sem água não existe vida, foi renovada em 1725, de que resultou o exemplar que hoje existe. No entanto não está no seu lugar original. Originalmente estava junto do inicio da subida da rua do Colégio Novo onde se situava a sua nascente. Ainda no século XIX foi transportada para junto da entrada do mercado Municipal. Concluída em 1986 a escadaria de Montarroio, foi quando se transferiu a fonte.

Entre as pilastras foram colocados elementos ornamentais, nomeadamente dois mascarões, de onde sai a água, uma inscrição com um grande letreiro com o brasão da cidade, por cima do entablamento estão as Armas de Portugal. A inscrição tem uma longa legenda, num estilo rebuscado alusiva à obra, quem a promoveu e que alude ao facto da fonte estar perdida, as circunstâncias da sua reconstrução e então renascer como se fosse uma fénix.

Torre-de-Santa-Cruz-CoimbraO CELEIRO

O celeiro foi edificado no século XVII que veio substituir o local que habitacional que existia desde o século XIII, pertencente aos priores-mores. Mantem ainda da sua estrutura original os seus três pisos, as janelas e as abóbodas interiores em tijolo e o seu amplo corredor central.

No edifício do celeiro se instalou, a cadeia civil de Coimbra, em 1854 para substituir a cadeia da Portagem, a que se chamou o Inferno dos Vivos e do Aljube. Atualmente existe uma esquadra da Polícia de Segurança Pública e onde a minha mãe trabalhou entre 1968 e 1970. Ao celeiro chegavam todos os anos, pelo menos em Setembro, pelo são Miguel, produtos de vários locais do País, onde os crúzios tinham rendas, enchendo a adega e o celeiro.

claustro manga 2

ENFERMARIA GERAL DO MOSTEIRO

Também no século XVII foi construída a Enfermaria Geral do Mosteiro, construído no sitio da horta, o edifício tinha algum afastamento das construções principais, para evitar o perigo de contágio e proporcionar mais sossego aos doentes. Também tinha uma longa fachada voltada para sul para que ficasse bem exposta ao sol, para melhoria dos enfermos.

A enfermaria já teria algumas celas individuais, luxo que hoje ainda não existe em alguns hospitais.

No interior do edifício atual, que é o Liceu Jaime Cortesão, sobrevive um corredor, com abóbodas de berço interrompidas por cinco cúpulas nas quais na reforma do século XVIII foram abertos lanternins, que ainda hoje se mantêm. Na fachada voltada para a rua subsistem três arcos que agora estão entaipados. O meu irmão fez aqui o liceu nos anos noventa.

Como o jardim da Manga é uma obra notável, será alvo de maior profundidade em artigo exclusivo.

torre santacruz2E Finalmente a TORRE DE SANTA CRUZ

Como os terrenos do Mosteiro de Santa Cruz (***), se situavam no exterior da Almedina da cidade, estes foram envolvidos por um recinto amuralhado (ainda existem alguns vestígios) com torres.

A torre de Santa Cruz, era a principal, robusta e imponente e deve remontar ao século XII ou XIII. Tinha 24 metros de altura e paredes com 2,8 metros de espessura dispondo de poucas aberturas.

No século XVI, passou-se para lá a torre dos sinos de Coimbra, em numero de 9.

Em 1539 foi achado na torre um tesouro de moedas de ouro e lascas de ouro e prata. O tesouro que deveria ter sido escondido e aí esquecido algures entre os século XII e XIII. Foram vários os que o reclamaram, entre os quais o rei dom João III e o seu irmão, dom Duarte, comendatário do mosteiro no ano do achado. Em 1542, judicialmente foram reconhecidos como legítimos proprietários o monarca e o achador do tesouro, que tem a graça de Aleixo de Figueiredo, espero que bom uso tenha dado ao tesouro.
No século XVIII, em 1758, foi a torre remodelada, erguendo-se altaneira com duas ventanas em cada face e remate bulboso, por cima da robusta quadra fortificada medieval. Esta estrutura barroca com 6 metros de altura deve ter contribuído para a sua ruína
A Torre entrou em arruinamento e como os ingratos conimbricences nada fizeram, e como ameaçava os transeuntes e os edifícios contíguos, esta acabou por ser demolida no dia 3 de Janeiro de 1935 com a colaboração dos bombeiros, processo que durou três dias que, para isso, injetaram água nos seus alicerces.

A Gazeta de Coimbra fazia a seguinte descrição do acontecimento: “Queda imponente, majestosa, gradiosisíma dum belo-horrível deslumbrante”. Espetáculo que a minha avó assistiu, acompanhada de centenas de conimbricenses.

E como tudo se transforma os sinos de Santa Cruz podem continuar a tocar, pois foram refundidos, de grandes tornando-se pequenos, e aplicados nas várias réplicas de monumentos religiosos nacionais do Portugal dos Pequenitos.

Fui o autor de um artigo no Diário de Coimbra, que pedia a sua reconstrução. O artigo teve algum impacto na época, não sei onde se encontra e perdeu-se algures num computador que eu tive.

Seria hoje uma das maiores e a mais possantes torres medievais em Portugal e um ícone de Coimbra.

Quem a quiser conhecer, pode dirigir-se ao Portugal dos Pequenitos (*), onde se encontra a sua reprodução miniatural, com o galo, os sinos e os seus relógios.

Artigo original escrito em 3 de Março de 2010 e remodelado em Agosto de 2018.

Referências adicionais: Atentado ao património: A Torre de Santa Cruz desapareceu há 82 anos, artigo de João Pinho para o Campeão das Provincias.

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