Torre e ponte gótica de Ucanha (Tarouca) (***)-A mais bela ponte de Portugal

Torre e ponte gótica de Ucanha (Tarouca) (***)-A mais bela ponte de Portugal

A torre e ponte de Ucanha são uma jóia única do Património Nacional.

O vale Encantado do rio Varosa

O concelho de Tarouca deve estar sempre nas boas cogitações dos viajantes portugueses, pelos seus mosteiros, as suas pontes medievais, o seu ambiente paisagístico algures entre a austeridade das Terras do Demo” e a garridice minhota, famoso pelos seus espumantes da Murganheira. Tarouca tem uma história que desempenhou um papel de relevo na Idade Média portuguesa. Reitero a recomendação de um passeio a esta região com bons monumentos, bons pitéus e melhores paisagens, chamam-lhe o vale encantado do rio Varosa.

Nas faldas da serrania das Montanhas Ocidentais Portuguesas escava o rio Varosa o seu vale, nascendo na zona montanhosa do concelho de Tarouca. “O sítio é de uma beleza suavíssima, sucedem-se as cortinas de árvores, por toda a parte se esgueiram estreitos caminhos, é como se a paisagem fosse feita de sucessivas transparências, em todo este percurso de pé-coxinho que o levará a Ucanha, a Salzedas, a Tarouca e a São João de Tarouca, sem dúvida alguma uma das mais belas regiões que o viajante tem encontrado, por todo um equilíbrio raro, de espaço e cultivo, de habitação de homens e morada natural”. (1)

Ponte-de-Ucanha

ponte de Ucanha com a sua torre medieval

José Saramago foi conhecer os seguintes locais notáveis: igreja matriz de Ferreirim (antiga igreja do mosteiro) (**), a ponte de Ucanha (***), o convento de Salzedas (*), a igreja matriz de Tarouca (*) e o mosteiro de São João de Tarouca (**). A igreja de Ferreirim situa-se no concelho de Lamego, os restantes locais  pertencem ao concelho de Tarouca.

 Torre e ponte de UCANHA

O monumento mais icónico de Tarouca é a torre e ponte de Ucanha que é a mais bela ponte medieval de Portuguesa e está classificada como Monumento Nacional desde 1910.
Se na idade média muitas pontes com torres fortificadas foram erguidas, quase todas desapareceram, a que esteve associado a existência da sua proibição a partir de 1504, pelo rei dom Manuel I. Em Portugal ainda existe a esta ponte que está em perfeito estado de conservação, a ponte de Sequeiros (*), no rio Côa, situada no concelho do Sabugal e cuja torre e a ponte do local da Portagem em Marvão (*).

Teresa Afonso de Celanova

Ninguém sabe ao certo quando é que a ponte de Ucanha primitiva, anterior a esta foi construída, talvez fosse romana, pois aqui passava uma estrada que ligava a Lamego; talvez dona Teresa Afonso de Celanova, viúva de Egas Moniz e Condessa, fundadora do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e nomeada por D. Afonso Henriques para educar os Infantes D. Urraca, D. Mafalda e o futuro rei dom Sancho I, ordenasse a sua reconstrução.

Descendente de uma família nobre Dona Teresa Afonso quando, por volta de 1124-1126, celebrou matrimónio com Egas Moniz, que ficara viúvo, não deveria ter mais do que 15 ou 16 anos. Falecido o marido em 1146, Teresa Afonso permanecerá em Britiande, centro dos domínios do marido, onde se dedica à educação dos filhos, incluindo o primogénito de Afonso Henriques. D. Afonso Henriques doou, em 1163, à viúva de Egas Moniz, o couto de Algeriz, acrescentando-lhe o território de Ucanha com a iniciativa de ambos, procedeu-se a construção a partir de 1168 do mosteiro de Santa Maria de Salzedas, mosteiro masculino da Ordem de Cister.

Certezas em relação desta construção é a de que o clérigo D. Fernando, 12º abade do mosteiro de Salzedas, filho bastardo de um irmão de D. Nuno Álvares Pereira, mandou erguer ou reerguer em 1465, a ponte de Ucanha e a sua torre sobre o rio Varosa. Para seu gáudio e perpétua glória, que a gala a tanto obriga mandou fazer uma cartela com a inscrição gótica que ainda lá está: “Esta obra mandou fazer Dõ Fedo Abble de Salzedas e DM M / III.º L X V «era domini». Ou seja esta obra mandou fazer D. Fernando, abade de Salzedas, em 1465.

Frei Fernando foi eleito abade em 1453 e exerceu o seu mandato ininterruptamente até 1474. Por ordem deste abade foi erigido em 1472 um hospital nas proximidades da ponte, para auxílio dos pobres e viajantes.

Foram os monges cistercienses quem beneficiaram da ponte de Ucanha, convertida em apreciável fonte de rendimento pelos direitos de portagem que seriam cobrados A ponte marcava a entrada no couto monástico do mosteiro de Salzedas e servia como depósito do pagamento da portagem que os viandantes aqui entregavam para a transporem.

A ponte funcionou assim com o respetivo pagamento, prática que só veio a ser abolida no reinado de D. Manuel I , no ano de 1504.

Ponte de ucanha

Ponte de ucanha

Como já se disse o rio marca a entrada do antigo couto do Mosteiro de Salzedas (*), onde são conservadas ainda dentro do seu limite as insólitas, ruínas da Abadia Velha de Salzedas, estas caso único em Portugal, porque apenas têm a base da construção do templo românico, sendo abandonada a sua edificação de maneira insólita.

No concelho de Tarouca, há várias pontes antigas que foram construídas quando os monges cistercienses se instalaram em S. João de Tarouca e em Salzedas, como a belíssima ponte de Vila Pouca (*), a vetusta ponte que fica mesmo em frente do velho burgo de S. João de Tarouca e que ligava a cerca do mosteiro à povoação, outra ainda em destaque é a de Mondim da Beira. Eis a proposta de um belo percurso histórico paisagístico- as pontes medievais do rio Varosa.

Segundo José Leite de Vasconcelos, o filho mais ilustre de Ucanha a edificação da  sua ponte deve-se às seguintes razões:

1-Defensivas, já que protegia a entrada do couto monástico;

2- Simbólicas, pois constituía uma evidente demonstração do poder senhorial dos abades de Salzedas; e

3- Económicas, pois permitia assegurar uma eficaz cobrança de direitos de portagem. Não duraria muito tempo pois nos alvores do século XVI, foram extintos, por determinação geral de D. Manuel I, como já disse, os direitos de portagem.

Descrição da ponte de Ucanha
A torre é um paralelepípedo com 20 m de altura e 10 m em cada lado da base, divide-se em três andares. O primeiro com frestas; no segundo em duas faces abrem-se duas graciosas janelas geminadas em arco ogival; o terceiro que seria de atalaia (Vigia) tem 4 matacães, apoiados em 3 modilhões.

A cobertura da torre é em telha, mas tempos houve em que não tinha qualquer cobertura da torre. Algumas das pedras têm alguns sinais, como cruzes com base triangular que não são siglas, mas, certamente, símbolos da fé das pessoas que os gravaram. Há várias representações de calvários, com três cruzes. É a sacralização de um lugar perigoso como era sempre a travessia de um rio, mesmo que existisse uma ponte protegida, como no caso da Ucanha. Do lado contrário, tem uma porta a que se acede por uma escada hoje em ferro, mas que, noutros tempos, deveria ser em madeira. Mal se começa a subir, logo numa das primeiras pedras está um relógio de sol. A fachada virada à povoação tem mais dois elementos: um nicho com Nossa Senhora do Castelo e uma edícula com uma inscrição já referidos (4).
Por debaixo da torre recorta-se um arco formando um túnel abobado por onde circulavam as pessoas e as suas mercadorias.
Ao longo dos anos a torre deve ter tido várias funções: arrecadação das portagens, serviu de defesa, como se verifica pelas características do terceiro piso, foi talvez mansão senhorial com torre solarenga e pode ter sido utilizado como celeiro conventual. Hoje está transformado num pequeno núcleo museológico local.
A ponte apresenta um tabuleiro em cavalete, resguardado por alto parapeito formado por silhares bem aparelhados. Assenta em 5 arcos ogivais, robustecidos a montante por talha-mares. O arco central, muito mais amplo que os restantes têm um arco de grande dimensão.

As pedras deste tão belo monumento estão quase todas sigladas, o que lhe confere autenticidade e nos remete para o labor organizativo e misterioso dos mestres canteiros.

“A meio da ponte de Ucanha está colocado um marco com uma cruz e a data de 1865 e, do lado contrário, outro marco que recorda as obras n’ “As pontes de Fornos, Táboas, Ucanha e Sancrou… nos preparou…”

A Aldeia Vinhateira de Ucanha, povoação a visitar

Ucanha, também conhecida anteriormente de vila da Ponte,  é uma das seis aldeias vinhateiras. “Em 2001 nasceu o projecto das aldeias vinhateiras do Douro, com o objectivo de recuperar várias aldeias do Douro Vinhateiro, através da revitalização socio-económica, da fixação da população, da reabilitação dos espaços públicos, do fomento da cultura popular, e do reforço da promoção turística do Douro.” (5)

As restantes cinco e que merecem a nossa visita por serem as aldeias mais belas da região duriense são: Provesende, Barcos, Trevões, Favaios e Salzedas a 3 km de Ucanha.

A aldeia desenvolveu-se  devido aos diligentes cobradores que se moirejavam nos afazeres fiscais de Ucanha, mas também tem outros motivos de interesse para além da ponte:

-Ucanha organiza-se linearmente ao longo da via que parte da ponte, numa estrutura urbanística que denuncia a sua origem. Ainda hoje, a povoação é quase uma linha de casas que se estende de um lado e outro do estreito caminho, formando uma espécie de guarda de honra a quem por ele circulava para obrigar a cobrança das portagens a que o mosteiro tinha direito.  As casas ornamentam-se de varandas em madeira, com o realce do vermelho, azul e verde nas suas pinturas. Com escadas exteriores apresentam quase sempre dois pisos, cujo piso térreo é utilizado para as lojas, destinado essencialmente para uso agrícola, enquanto o segundo piso se destina à habitação.

-pelo rio Varosa, e que aqui ainda caudaloso permite a existência de moinhos de água, dois deles junto à ponte, uma praia fluvial e pelo belo cenário de original formosura, acompanhado por amieiros e salgueiros, sob um pano de fundo fresco, colorido e verdejante;

-pela sua igreja matriz, que construída na primeira metade do século XVII e se exteriormente pouco tem de ver, o seu interior é muito belo com a sua nave coberta por caixotões pintados com cenas bíblicas e pelo seu retábulo principal, em artística talha dourada trabalhada no estilo barroco. Esta igreja deveria ser classificada, com valor concelhio.

-Ucanha é a localidade onde nasceu José Leite de Vasconcelos em 7 de julho de 1858, e de onde saiu muito cedo. Este é um dos maiores vultos culturais de todos os tempos em Portugal, e que se norteava pelo rigor, serenidade e profundidade na análise dos temas.

José Leite de Vasconcelos, o gigante erudito, criador do Museu Nacional de Arte Antiga

“Formado em medicina, consagrou-se integralmente às ciências sociais, com tese defendida na Universidade de Paris, França. Bibliografia imensa (mais de 1.200 títulos), seus estudos, que abrangem a história e a arqueologia, a epigrafia e a numismática, na Etnografia ou na Filosofia assinalam rumos, conformam a pedra angular e constituem o alicerce da ciência moderna em Portugal. Fundador da Revista Lusitana e do Museu Etnológico português (digo eu, hoje Museu Nacional de Arqueologia (****) em Lisboa), conferencista, pesquisador, pela investigação teórica ou nos trabalhos de campo sua enorme capacidade e autoridade moral acenderam, de forma imorredoura, a luz da contemporaneidade em sua pátria”2.
A sua obra imortal, para além do museu, talvez seja As religiões da Lusitânia, de uma atualidade que surpreende.Publicada entre os anos 1897 e 1913 pela Imprensa da Casa da Moeda de Lisboa, Religiões da Lusitânia constitui a primeira obra monumental de síntese sobre as religiões antigas do Portugal pré-histórico e antigo, assim como uma das primeiras da Península Ibérica.

Pode aceder aqui a este trabalho fantástico.

Nota: A fotografia a preto e branco foi retirada do site do Turismo do Porto e Norte de Portugal.

Bibliografia adicional:
1- Viagem a Portugal- José Saramago
2-http://www.thesaurus.com.br/livro-na-rua/acervo/jose-leite-de-vasconcelos/

3- https://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Ucanha

4http://www.patrimoniocultural.gov.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_4/volume_26/ucanha_ameliaalbuq_joao_vaz.pdf

5-http://www.roteirododouro.com/aldeias-vinhateiras

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