Residência senhorial dos Castelo Melhor/Torre de Santiago da Guarda (Ansião) (**)-Um tesouro romano escondido sob uma Torre medieval

Os moradores da aldeia de Santiago da Guarda apelidaram-na, com ar soberbo, como “Castelo de Santiago”; É constituído por Torre, Paço e Capela. O paço quinhentista manuelino é um exemplo peculiar da arquitectura civil lusitana do século XVI. Muito vandalizado, foi restaurado recentemente, e nele se fez o achamento da maior beleza arqueológica do País no século XXI.
Arquitectura da Torre de Santiago da Guarda
Conspícuo pela geometria e pela congruência do desenho, o paço quinhentista manuelino, é um exemplo peculiar da arquitectura civil lusitana do século XVI. Do conjunto, evidencia-se a torre, quatrocentista, de espírito belicoso, elemento imperante pelo seu número de pisos em confronto com o corpo térreo de um piso que limita o pátio central. O volume da capela, adossado à ala nascente, é o terceiro elemento proeminente do conjunto.
A TORRE quadrangular é vigorosa, de silharia calcária e coroada de merlões. Tem frestas, janelas góticas e seteiras. O acesso ao interior faz-se por um portal a partir de uma escada em pedra. O interior teria três pisos. Actualmente é possível subir ao piso superior.
O PAÇO dos Vasconcelos, tem planta aproximadamente quadrangular, com quatro alas em torno de um pátio central, desenvolve-se num só piso; em perfeito equilíbrio arquitectónico com a torre a capela. As janelas manuelinas de dimensão assinalável têm todas desenho distinto. Também no interior do edifico, se encontra uma vieira esculpida, a lembrar os peregrinos, que neste Caminho de Santiago de Compostela que aqui se poderiam abrigar.
A CAPELA quinhentista, de planta quadrangular está apoiada por dois contrafortes; tem uma bonita cobertura em abóbada de nervuras, cujo arranque é sustentado por mísulas com decoração manuelina, gramática ornamental adoptada para as chaves da abóbada à excepção da central que ostenta a pedra de armas dos Câmaras. Este espaço serviu de palheiro durante algumas dezenas de anos, e honra seja feita aos animais que não o degradaram muito!
A História da Torre de Santiago da Guarda
A torre original terá sido mandada construir por Dom Afonso Henriques, após a sua derrota em Santarém; insere-se num importante conjunto defensivo, edificado de novo ou requalificado, onde se incluem, e aqui apenas refiro os que materializam locais actuais notáveis, os castelos de Arouce (Lousã) (*), Penela (**), Germanelo (*), Pombal (**), Leiria (**), Soure (*) e Montemor-o-Velho (***). No Concelho de Ansião, mandou edificar ainda as torres de Ladeia (em Alvorge, onde ainda existem ruínas que deveriam ser requalificadas e classificadas) e a Torre de Vale Todos (que deu nome a localidade e de que nada resta).

A torre poderá ter pertencido ao Infante Dom Pedro, mas após a sua morte na Batalha de Alfarrobeira, D. Afonso V doou esta propriedade a João de Vasconcelos e a todos os seus sucessores, com todas as suas rendas, direitos e pertenças, fidalgo da casa real e do conselho do rei. A recuperação do Paço decorre na primeira metade do século XVI, reconstruindo-se em estilo manuelino. Em 1621, João de Vasconcelos e Sousa recebe o título de 2º conde de Castelo Melhor. O conjunto permaneceu na posse desta família desde o século XVI até 1996.
Como o nome da localidade indica, aqui situava-se um troço do Caminho Português de Santiago, que percorre Santarém-Leiria-Coimbra. A residência poderá ter funcionado como albergaria.

Existe uma fotografia tirada em 1955, do portal de acesso ao pátio, hoje desaparecido. Sobre a verga, estava gravada a data de 1544 com brasão.
A perda do estatuto de habitação senhorial degenera no arrendamento do espaço para habitações, comércios, estábulos e arrecadações. Em 1996 o município adquiriu o conjunto muito degradado.
A Descoberta prodigiosa de uma villa romana em Santiago da Guarda
A par de toda a intervenção arquitectónica, iniciou-se também em 2002 um trabalho de pesquisa arqueológica. Refira-se que aqui, já existiam indícios de presença romana, nomeadamente uma pedra com inscrição latina na fachada da Torre ou a existência de tegulae. Entre 2002 e 2005,a intervenção arqueológica viria a revelar, dentro das paredes da residência Senhorial, uma villa tardo-romana do século IV/V, onde foram postos a descoberto dezassete pavimentos mosaicos de extraordinária importância, que estão agora visíveis, protegidos por um chão de vidro.

A villa romana insere-se eixo de romanização, que parte de Coimbra, com o criptopórtico no Museu Machado de Castro (***), com a mãe de água de Alcabideque (*), que servia a monumental cidade de Conimbriga (***) e a villa do Rabaçal (**).
Conimbríga, Rabaçal e Santiago da Guarda, possuem o conjunto de mosaicos romanos mais importantes de Portugal. Quanto à coexistência, num mesmo local, de uma residência senhorial do Séc. XVI e de uma villa Romana, é mesmo caso único na Península Ibérica.
A Villa, que teria sofrido várias remodelações, seria monumental e luxuosa, com átrio, peristilo, triclinium, amplas salas – a da recepção com zona de culto com uma pequena abside, que poderia servir para alojar qualquer objecto relacionado com o referido culto; um grande corredor com 4,89 metros de largura e 19,85 de comprimento e até teria um espaço para aquecimento do ar. A sua réplica encontra-se instalada no museu de Conímbriga.
Os soalhos musivos pertencem ao último dos três grandes períodos dos mosaicos na Península Ibérica, e a semelhança do Rabaçal, estão datados de finais do século IV ou inícios do V.
Tendo 4 cores preferenciais – vermelho (a cor do Império Romano), amarelo (a cor da fortuna), azul e branco; têm figuração geométrica, floral e simbólica em magníficas composições de densas figuras. Os pavimentos são de beleza indescritível, e um deles, o mais enigmático, é uma verdadeira obra prima- este poderá ser a mais bela obra de arte dos alvores do cristianismo da Península Ibérica; mas tudo isto é especulativo; que os especialistas em breve nos esclareçam sobre o seu verdadeiro significado; é desconcertante a sua beleza misteriosa. 
À guisa de conclusão, podemos dizer que o Complexo Monumental de Santiago da Guarda é único no panorama ibérico; e que é a mais palpitante descoberta do património nacional deste século no que concerne ao Império Romano até a data. Imperdível!

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