Centro Histórico da vila do Crato (*)- No coração dos Cavaleiros Hospitalários

Confessamos, que aqui no Portugal Notável, temos uma especialpredilecção pelos tranquilos burgos alentejanos com o seu silêncio apaziguador e guardador de recatos históricos de valor. Um exemplo é esta vila de Crato, que abriga ainda igrejas, casas solarengas e as ruínas do castelo com elementos arquitectónicos que reflectem ainda uma opulência antiga.
Por aqui estiveram os cartagineses, romanos, Vândalos, Alanos; com estes últimos o Crato já era bispado e o seu nome era Castraleuca ou Castra-Leuca que no decorrer dos séculos e por corrupção, passou a denominar-se Ucrate ou Crate e, por fim, Crato. No ano de 582 voltou a ser tomado, sendo desta vez os Visigodos os seus novos senhores. No ano de 706 os Mouros, no ímpeto da sua avançada vitoriosa através de toda a Península, apoderaram-se dela, ficando sobre o domínio Muçulmano durante 454 anos, até que em 1160, D. Afonso Henriques, a conquistou.
Aqui se refugiou a rainha D. Leonor, viúva de El-Rei D. Duarte, quando em 1440 as cortes confiaram a regência ao Infante D. Pedro, durante a menoridade de D. Afonso V.
Ordem dos Hospitalários (de Malta) no Alentejo
Em 1232 o rei D. Sancho II doou-a à Ordem dos Hospitalários, sendo prior, Mem Gonçalves, que deu o primeiro foral à vila, no mesmo ano. Esta Ordem, estabeleceu-se em Portugal no tempo de D. Afonso Henriques, em Leça do Bailio, tendo sido o seu primeiro prior, um irmão do rei. Porém, em tempo de D. Afonso IV, por volta de 1335, sendo Mestre da Ordem D. Álvaro Gonçalves Pereira, foi a sua sede transferida para o Crato, passando ele e os seus sucessores a usar o título de Prior do Crato. Assim, se estabeleceu aqui, a capital do priorado que possuía vinte e três comendas e as seguintes terras e seus termos: Crato, Amieira, Belver, Cardigos, Carvoeiro, Sertã, Envendos, Oleiros, Gáfete, Tolosa, Pedrogão Pequeno e Proença-a-Nova. O Grão-Prior do Crato tinha poder espiritual e temporal, com jurisdição episcopal, motivo pelo qual não estava subordinado a prelado algum. Do Crato partiu o Prior com os cavaleiros da sua Ordem, a tomar parte na batalha do Salado. Os componentes da comunidade, eram frades batalhantes- guerreiros e monges- e tinham votos de humildade, pobreza e castidade, o que não impediu D. Álvaro de ser progenitor de trinta e dois filhos. Para instalação da Ordem, mandou edificar no sítio de Flor da Rosa- arrabaldes do Crato- o Mosteiro (***), que passou a ser, desde então, a sede daquela Ordem em Portugal e mandou remodelar os castelos de Belver (**) e Amieira do Tejo (**).
Dom Álvaro era o pai de D. Nuno Álvares Pereira que por aqui brincou e até talvez tenha nascido. A partir do século XVI a Ordem do Hospital passou a denominar-se Ordem de Malta, nome que ainda hoje conserva. Em 1512 teve a vila novo foral, dado por El-Rei D. Manuel.

Entre os sucessores do pai do Condestável, notabilizou-se D. António, neto do rei Dom João III e um dos pretendes à coroa pela morte do cardeal-rei Dom Henrique e que ficou conhecido na nossa história com Prior de Crato.
Um episódio da Guerra da Restauração que determinou o destino do Crato
Episodicamente, em 1662, Crato caiu em poder de D. João de Áustria, que lhe pôs cerco, encontrando, porém, desesperada resistência. Conquistada a praça, finalmente, pois tinha uma pequena guarnição, foram enforcados por ordem do general espanhol, o seu governador e o sargento-mor. A partir desta data a vila perdeu muita da sua importância.
E o que é hoje a vila de Crato?
Crato é hoje uma pequena vila com casas, muitas delas nobres do século XVII e XVIII, com barras pintadas de amarelo. Aliás, o tom amarelo predomina no seio do seu centro histórico e no final da Primavera também nas campinas em redor. Jornadeando pelas suas vielas estreitas e de chão empedrado, a cruz de oito pontas vai-nos surgindo aqui e além, testemunhando a importância da Ordem de Malta na história desta região; é nesta região que se encontram os mais belos monumentos desta ordem em Portugal, com a excepção do Mosteiro de Leça do Bailio (***), e que são o Mosteiro Flor de Rosa (***) e os Castelos de Belver (**) e da Amieira do Tejo (**).
Os casamentos régios em Crato
A comprovar a predilecção dos nossos, reis aqui se celebraram os casamentos régios de do rei dom Manuel I com Dona Leonor (1518) e do seu néscio filho, Dom João III com Dona Catarina (1525), ambas irmãs do imperador Carlos V.
5 Locais a visitar no Crato.
-A famosa varanda do Grão-Prior que outrora fazia parte do Palácio, provavelmente da autoria do arquitecto Miguel Arruda.
-O museu municipal do Crato está inserido no bonito palácio dos Arcos. É um Museu de grande qualidade com vários núcleos. Consultar aqui o seu site http://www.cm-crato.pt/museu/museu.html
-A igreja matriz fundada no século XIII, mas profundamente remodelada no século XVI com um interessante recheio em que destaco uma imagem trecentista de pedra figurando São Bartolomeu, uma Pietá quatrocentista, um órgão e os azulejos hispano-árabes quinhentistas.
-O castelo que não é visitável e que da idade média pouco tem, porque foi profundamente transformado no século XVI numa fortaleza com baluartes.
-A Capela do Bom Sucesso de estilo barroco propositadamente para que os presos da cadeia, que se que se situa defronte, pudessem assistir às celebrações litúrgicas que nela se realizassem. Capela harmoniosa, quer na arquitectura quer na decoração, com o altar integralmente construído em mármore.
Infelizmente Crato tem desaproveitado algumas das suas potencialidades não beneficiando dos turistas que se alojam no Mosteiro de Flor de Rosa (***). Damos aqui como exemplos o castelo encerrado desde a muito, a igreja matriz fechada em dias normais, o não aproveitamento comercial do seu notável centro histórico, a falta de estudo e requalificação da Anta do Crato e da vila romana da Granja. E nós até para visitarmos uma das mais monumentais antas portuguesas- a anta do Tapadão (**), tivemos que saltar a cerca, entrar em propriedade privada e enfrentar com muito receio gado taurino que se acantonava em vizinhança da anta, enfim, Deus dá nozes a quem não tem dentes.  
Créditos fotográficos do Jotta 13

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>