Conjunto patrimonial de Vilar Maior (Sabugal) (**)

Conjunto patrimonial de Vilar Maior (Sabugal) (**)

Vilar Maior (Sabugal). Castelo de Vilar Maior.

Provavelmente não são muitos os portugueses que conhecem a aldeia de Vilar Maior no concelho do Sabugal e no entanto é uma das mais belas da Beira Interior. Saiba porquê! Não julgue o leitor (ou viajante – que para o caso é indiferente), que Vilar Maior é uma das doze aldeias históricas beirãs classificadas, o que é manifestamente injusto! Apesar deste contratempo tem esta aldeia à sua disposição variadíssimos testemunhos patrimoniais de diversas épocas cronológicas. De entre o conjunto de elementos arqueológicos mais representativos enumeram-se alguns achados da Neolítico, Bronze final e Época Romana, alguns expostos no museu local: machados pré-históricos, mós de vaivém, cerâmica manual, cerâmica romana, pesos de tear e mós circulares a guarda.

O Castelo Templário de Vilar Maior

O castelo, que se ergue sobre uma colina granítica delimitada pelos pequenos rios Alfaiates e Cesarão, suscita algumas dúvidas quanto à sua fundação, uma vez que se colocam várias hipóteses: castro da Idade do bronze e vetão, fortaleza romana e árabe. Vilar Maior possui uma quantidade grande de elementos patrimoniais datáveis do período medieval, dado o desenvolvimento incontestável que sofreu entre os séculos XIII-XIV, sendo que o elemento de maior destaque é a sua fortificação. Depois da ocupação moura e após a Reconquista a povoação foi entregue aos fugazes Cavaleiros da Ordem São João de Pereiro (com provável sede na região). Ocupado pelos portugueses, o castelo viria de ser tomado, em 1230, pelos leoneses. Em 1296 o castelo foi retomado por D. Dinis, dando-o aos templários e concedeu foral a população. Em 1297 a povoação foi confirmada como portuguesa com o Tratado de Alcanices.

Vilar Maior

Entre 1367 e 1383, o castelo, conjuntamente com os de Castelo Mendo (**), Sabugal (*), Vila de Touro e Castelo Bom (*) era importantíssimo na de defesa do Ribacôa. Dom Manuel concedeu segundo foral a povoação em 1510 e melhorou o castelo. O Castelo tem traçado oval, o que permitia uma melhor sustentação das muralhas por falta de contrafortes e cubelos. Na muralha, sem ameias, abrem-se duas portas.  Das diversas construções que o interior do castelo integrava, subsiste a cisterna, o extenso túnel que irrompe até às margens do rio Cesarão, mas principalmente a sua torre de menagem.

A monumental torre de menagem do Castelo de Vilar Maior

Adossada exteriormente às muralhas, tem planta quadrada e atinge os 23 metros de altura (o que a torna uma das mais altas de Portugal); com três pisos, apresenta exteriormente um escudo com cinco quinas e várias seteiras. Neste colosso de pedra, são belíssimas as mais  de 100 diferentes siglas dos canteiros medievais, de carácter utilitário mas também de jugo enigmático, porque aqui estamos em domínio templário. Existe ainda a tradição oral de que aqui os Cavaleiros da Ordem do Templo de Jerusalém praticavam astrologia (esta informação li já não sei onde e é preciso confirma-la).

Castelo Templário de Vilar Maior

Quem penetra na porta da torre (e cuidado para não cair) é perpassado por um sentimento íntimo, coado, onde se intercalam feixes solares com a penumbra, e que realçam, ainda mais, as marcas dos canteiros medievais; ao fundo fetos gigantes, muito verdes, encerram um conjunto enigmático eivado de beleza poética e de enorme sentido plástico. A saída do  castelo repare-se num e de jogo do moinho, gravado em pequeno afloramento granítico, descanse um bocadinho e faça um jogo.

A Povoação de Vilar Maior

O casario da povoação encontra-se disperso pela encosta e pelo vale do rio Cesarão. A antiga cerca defensiva que rodeava o aglomerado encontra-se hoje praticamente destruída, restando ainda uma porta e alguns troços em que se adossam as habitações  -numa delas é o museu local. Na ombreira da porta da antiga cerca pode observar-se ainda uma inscrição medieval com a dedicatória e a sua data de construção – 1218. Alguns outros elementos de interesse patrimonial da aldeia são: as calçadas, a cruz de cristo gravada num silhar, o pelourinho, a ponte romana, a igreja de São Pedro (com uma belíssima pia batismal, em granito monolítico, não se sabe se terá sido templária ou visigótica- a sua traça é muito arcaica mas a cruz orbicular é templária- dela emana o enigma), os vestígios da Igreja românica de Santa Maria do Castelo (atualmente apenas resta a capela-mor e o arco triunfal de volta perfeita; entre as suas particularidades destaca-se a cornija decorada por meias esferas e sustentada por uma cachorrada decorada com motivos geométricos, a que não falta a cruz templária e zoomórficos), a igreja da Misericórdia e os antigos paços do concelho.

Arte rupestre da Idade do Bronze em Vilar Maior

Nos antigos paços do concelho encontra-se hoje o museu de Vilar Maior  (que merece a sua visita) e à sua porta, em afloramento granítico, foi feita uma descoberta recente – aqui se desenterrou um painel de arte rupestre da Idade do Bronze com cerca de 4.000 anos com fossetes; o “tabuleiro” em si, é um exemplo típico painel reticulado da arte rupestre deste período no nordeste peninsular.

O assassínio de Maria Teles e Vilar Maior na narração de Fernão Lopes

 Vilar Maior está relacionado com um episódio particular da nossa História. Segundo a crónica de Fernão Lopes, Dona Leonor Teles terá preparado um enredo segundo o qual convenceu o seu cunhado, Dom João, filho de Dom Pedro I e Dona Inês de Castro, de que a esposa o traía. Dom João acabou por assassinar Dona Maria Teles, em solar que existia junto à Igreja de São Bartolomeu na Praça do Comércio (*) em Coimbra, fugindo Dom João dos familiares da esposa para Vilar Maior. Daqui não se sentindo seguro, acabou para fugir para São Félix de Galegos.

A judiaria de Vilar Maior

Vilar Maior oferece ainda um interessante património civil na margem esquerda abrupta do rio Cesarão; aqui deparamo-nos com um conjunto de pardieiros arruinados que pelo seu arcaísmo bem mereceriam ser recuperados – entre as habitações, algumas foram pertença de judeu. São visíveis vestígios da sua presença nas ombreiras e soleiras das portas.

A paisagem natural em Vilar Maior é excecional

A par dos valores patrimoniais históricos e artísticos, Vilar Maior é também uma fonte de riqueza natural e paisagística. Localizada entre duas ribeiras, no ponto de confluência com o Côa, possui uma qualidade paisagística excecional. Este valor natural é complementado pela existência nas cercanias de uma mata de carvalhal negral classificada, que se estende até Malhada Sorda. É de tremenda iniquidade a aldeia de Vilar Maior não ter sido declarada Aldeia Histórica e não ter sido alvo de recuperação ao abrigo daquele programa; mas na minha afeição, esta é a décima terceira aldeia histórica; outras existem que foram esquecidas e que serão respetivamente a décima quarta e a décima quinta – Cidadelhe (***) (Pinhel) e Avô (*) (Oliveira do Hospital).

Nota final: Na última viajem que fizemos por Vilar Maior, fomos acompanhados pelo amigo Júlio Silva Marques que tem um ótimo blog sobre esta linda localidade.

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4 comentários Conjunto patrimonial de Vilar Maior (Sabugal) (**)

  1. Myrtle says:

    Nice Cave
    Thatis a cool carving.

  2. António Cunha says:

    Parabéns por este maravilhoso espaço e por esta bela descrição da história e das paisagens de Vilar Maior.
    Muito Obrigado
    António Cunha

  3. Parabens por darem a conhecer o património do concelho e de Vilar Maior. Em relação aos textos o melhor é citar as fontes que é a forma de nos livrarmos de afirmações que não correspondem à realidade.Por exemplo, a torre de menagem de Vilar Maior é suficientemente grandiosa para não termos que lhe acrescentar na altura e quanto ao número de siglas inscritas apesar do numero ser exagerado, já vi em texto que seriam mais de 300.
    Parabens!

  4. Castela says:

    Amigo Júlio
    Normalmente cito as fontes, mas por vezes leio tanto que por vezes não sei de onde retirei a fonte.
    Quanto a altura da torre de menagem, apenas citei o número que me pareceu mais correcto, desde a base, medida do exterior ao topo. Qual é então a altura exacta da torre?
    Obrigado pela visita.

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