Villa Romana de Milreu (Faro) (***)

Em plena campina algarvia, perto de Estói, encontra-se um dos mais importantes sítios romanos em Portugal. Durante muito tempo acreditou-se que Milreu seria a cidade de Ossonoba (onde actualmente está Faro), mas afinal estávamos em presença de uma faustosa villa romana, fundada como casa rural no século I, transformada no século seguinte e aumentada no século III d.C.; a ocupação do espaço prosseguiu até ao século XVI com prova a casa rural deste período que explorava os férteis terrenos do barrocal algarvio, situada entre o litoral e o Monte Figo (***)- um dos mais belos miradouros de Portugal.
Achados arqueológicos da Villa de Milreu
A villa de Milreu teria uma extensão de várias dezenas de hectares. As escavações arqueológicas revelaram importantes achados arqueológicos. Como mosaicos magníficos representando o ambiente marinho, revestimentos em mármore de Extremoz, do século III e IV d.C., com gosto oriental que, por vezes, revestiam toda a superfície de uma sala, cerâmica decorativa, magníficos bustos imperiais…algum deste espólio está disperso e deveria ser aqui concentrado.
As paredes das divisões mais nobres da casa eram envolvidas por belos mármores em forma de pilastras, encimadas por capitéis coríntios, ou elementos naturalistas.
Nos espaços intermédios, as paredes estucadas recebiam as pinturas feitas a fresco: composições geométricas ou quadros de inspiração naturalista simulavam paisagens idealizadas. A localização das primeiras é, na maioria dos casos, em rodapés e só raramente em outras zonas das paredes ou em abóbadas. Ainda hoje em Milreu, é possível observar alguns vestígios dessa decoração.
Os espaços destinados às visitas nas villae, como o atrium, o peristilo, os jardins, as fontes, os ninféus e as termas eram decorados frequentemente com esculturas.

O edifício teria de ser de alguém muito importante e poderoso, quem sabe da família imperial, pois aqui encontraram-se magníficos bustos imperais (*): a da bela Agripina, a Jovem- mãe de Nero, do século I; a do grande imperador Adriano (*), século II; e o mais belo de todos, a do imperador Galieno (*), século III, de grande densidade psicológica, talvez atormentado de imensa dor física ou psicológica. Os dois primeiros encontram-se no Museu de Faro (**) e o de Galieno, só por si por si vale uma visita ao museu Dr. José Formosinho em Lagos (*).
A villa Romana tinha um pátio central com peristilo de 22 colunas de mármore branco, com tanque central e jardim. Em volta do peristilo dispõem-se grandes salas: sala de refeições (triclinium), convívio, leitura e jogo. Todas estas divisões contem belos mosaicos romanos.
Chamo a atenção para um belíssimo pavimento mosaico (**), na parte oriental do peristilo, com um golfinho magnífico com olhos e focinho inesquecível, a segurar um pano de cor púrpura, percas gordas prateadas, gordos peixes avermelhados, uma lula- de expressão admirável, com olhos hipnotizantes.
Os golfinhos e a cor púrpura
São vários os golfinhos representados e eles seguram uma faixa de cor púrpura- curiosamente esta pigmentação era obtida a partir de moluscos. A cor é o símbolo de força e coragem do sangue romano e que se perpétua para a igreja Católica; a púrpura imperial era usada pelo senado romano, cujos membros vestiam togas nessa cor. Com o fim da República romana e o surgimento do império, apenas os imperadores a usam. Nero chegou a decretar uma pena de morte a quem ousasse usar a cor. Os golfinhos pelo seu ar benevolente eram um animal sagrado na antiguidade e simbolizam a sabedoria, a bondade e a prudência. Ainda hoje, muito próximo, navegam nas águas algarvias, perto das ilhas barreira do Parque Natural da Ria Formosa e estar com eles, no seu meio, é um prazer único. A visita é feita a partir daqui.

Junto da sala das refeições (triclinium) encontra-se o acesso as termas com frigidarium, tepidarium e caldarium, com sala de espera com os assentos. Por baixo funcionavam fornalhas para aquecimento. Mediam no seu conjunto 32×31 m e está virado para a ocidente e segue as indicações de Vitrúvio para as instalações balneares, deixando entrar nas sua alas os quentes raios solares de poente.
Os peixes do frigidarium (*)
A decoração dos tanques é magnífica, e está associada ao culto da água. Por exemplo, o tanque pequeno do frigidarium, os peixes representados são exageradamente anafados. Este atributo é intencional, pois vistos dentro da água, por ilusão óptica, não só simulavam nadarem, como as suas dimensões ficavam reduzidas à normalidade. Os mosaicos de revestimento mural são raros em Portugal e no entanto encontram-se aqui, no podium do ninfeu e em tanques diversos.
O mais belo santuário romano de Portugal (Ninfeu) e o Concílio de Niceia
Tudo isto é notável, mas o que se salienta neste sítio é o magnífico templo (santuário) dedicada ao culto da água (ninfeu).
Quem entra repara desde logo na sua grande dimensão e no seu elevado grau de preservação, porque subsiste nele a parte inferior e a parte das paredes em tijolo, com realce para a imponente abside, onde se observa ainda vestígios da galeria circundante. São muitos os motivos de interesse para ver esta ruína bem conservada, mas o viajante logo repara na decoração de mosaicos conservada junto à escadaria ao pódio. São peixes castanhos e cinzentos-claros em tamanho natural e dois golfinhos, um em cada lado. Os peixes nadam por entre outros seres marinhos mais pequenos. No seu conjunto, estes mosaicos constituíam um friso mural de quase 50 metros de com uma cercadura, na parte superior e na parte inferior, em forma de banda entrançada. Este friso a volta do pódio é único no mundo romano e constituía a parede de uma piscina envolvente. O templo seria dedicado a divindades aquáticas (ninfeu).
Transposto o portão sobe-se por uma escadaria de três degraus ao patamar do pódio, com 1,20 metros de altura. A cella com o pavimento e as paredes revestidas a mármores policroma seria luxuosa e bela.

Estranha á a data da construção deste edifício, na segunda metade do século III ou seja depois do Concílio de Niceia, em 341, e de 346, pois a partir desta última data os autores de sacrifícios pagãos passaram a ser punidos com a pena de morte- estava pois, implementado o império autoritário da doutrina Católica.
Como é possível e quem seria o importante patrício romano, que ainda conseguiu em tempos adversos construir este tempo de preceitos pagãos?
Muito próximo de Faro na magnífica Quinta do Marim (***) sede do Parque Natural da Ria Formosa e em São Cucufate (***) (Vidigueira), nas imediações de vilas rústicas, também se encontram edifícios semelhantes, mas de menor escala.
A partir do século VI, o templo foi transformado em basílica paleocristã já num período em que esta importante villa romana fenecia e todo o soberbo império romano estava em declínio. O templo foi cristianizado no século IV. No pátio do santuário é possível ver uma piscina baptismal cristã (*) sobre uma sepultura.

Mas a história não acaba aqui porque inscrições descobertas no século VIII dizem-nos que o templo foi adaptado a oratório muçulmano por uma família de muladis (cristão convertidos ao islamismo) de nome Al Hâmmu. A partir do século X, toda a estrutura é abandonada.
No século XVI, sobre as ruínas de um edifício romano, há muito abandonado, foi erguida uma casa – único e precioso exemplar algarvio desse tipo de arquitectura civil com contrafortes cilíndricos fortificados, com pequenas frestas para tiro. No seu interior existe um grande lagar romano, que não está totalmente explorado e também belos mosaicos. Na área da casa existia a pars rustica, onde ainda existem dolias (talhas) in situ.
Estão ainda apor explorar muitas das construções iniciais do século I, por terem sobrepostos edifícios mais recentes.
Os membros da villa foram sepultados nas imediações das casas mas fora da área habitacional. Em Milreu foram colocados vários locais de enterramento e pode-se ver as ruínas de um edifício sepulcral com pódio, para colocação das urnas.
Muito próximo a Pousada histórica do Palácio de Estói (*) também merece a sua vista.
No paraíso algarvio climático algarvio foi construída, muito provavelmente uma das mais espectaculares villas romanas da Península Ibérica. E é a água nas suas interpretações simbólicas o principal actor; é ela fonte de vida, meio de purificação e centro de regenerescência. Mergulhar nas águas, para delas emergir, é refrescar a nossa alma, reabastecer-nos num imenso reservatório de energia que nos dota de força para continuar a nossa labuta. É também por isso que adoramos o Algarve; e já que as piscinas e tanques do ninfeu, do baptistério e das termas estão secas e está calor é tempo de irmos para as paradisíacas praias do Parque Natural da Ria Formosa.
5 templos romanos notáveis de Portugal
Templo de Almofala (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
Templo de Diana (Évora) (***)
Templo de São Cucufate (Vidigueira) (*)
Tempo romano do Capitólio da cidade romana de Miróbriga (***) (Santiago Cacém)
Templo do Castro de Orjais (Nossa Senhora da Cabeça) (Covilhã) (*)

Bibliografia:Ruínas de Milreu, Estói (Algarve), “Roteiros de Arqueologia Portuguesa”, IPPAR e Ministério da Cultura
Créditos fotográficos -Algumas fotografias são do Dias dos Reis

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3 comentários Villa Romana de Milreu (Faro) (***)

  1. José de Paula Brito - Pres. da Freguesia de Estoi says:

    Muito satisfeito, com a divulgação do Património da Histórica Aldeia de Estoi, acrescento uma nota: Dos bustos encontrados em Milreu falta mencionar o mais importante importante e magnífico busco encontrado em toda a Península Ibérica o busto de “Júlia” depositado no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa, constante do site daquele museu e uma das suas peças considerada como “Tesouro Nacional”(ver site do Museu), à qual o grande poeta e vulto cultural do séc.XX português dedicou o poema “Cabecinha de Milreu”, publicado no seu livro intitulado “Metarmophoses”, que brevemente estará consagrado em azulejo numa das ruas históricas de Estoi, nas suas versões portuguesa e em inglês.
    Chamo a atenção que há historiadores que consideram que o Templo Romano de Milreu não seria dedicado ao culto das águas como diz a versão institucionalmente aceite, mas sim ao culto cristão, daí que os maravilhosos peixes retratados nos mosaicos de Milreu, mais não seriam que a versão erudita e de elevado valor artístico do “peixe”,símbolo por excelência do cristianismo da época, ao qual os “banhos” das termas de Milreu também se associavam como símbolo purificador, constituindo assim desde a sua origem um templo paleo-cristão, um dos primeiros do mundo, o que se fosse oficialmente aceite faria deste lugar um dos mais visitados pelo turismo religioso a nível mundial. Quero acrescentar que os achados arqueológicos muçulmanos não foram encontrados no séc. VII ou VIII, eles são dessa época. Por outro lado, o facto de não haver elementos construídos do séc. VIII ao séc. XIV nada prova que o edifício tivesse sido abandonado no séc VIII, sendo reocupado apenas séculos mais tarde. Aliás, em relação à chamada “Casa Rural de Milreu”, com seus contrafortes ou torres cilíndricas, a sua construção nunca será do séc. XVI, pois dentro dela em exposição encontra-se um baixo-relevo aí encontrado, com um cavaleiro medieval, datado do séc. XIV. Não será de descorar que será um edifício moçárabe, dos séc. X ou XI, como as muitas ermidas de arquitectura semelhante existentes no Alentejo e que fosse como essas outras construída como edifício de culto, dando continuação à tradição do Templo Paleo-Cristão Romano.
    Com os melhores cumprimentos
    José de Paula Brito

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