Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)

Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)

Sortelha. Aldeia Histórica de Portugal.

A 760 metros de altitude, Sortelha é uma das mais belas aldeias de Portugal Ultrapassada a Porta da Vila, a que o povo chama de entrada, viajamos no tempo e detemo-nos num pequeno povoado de traçado medieval. Sortelha é indiscutivelmente uma das aldeias mais belas de Portugal. O granito constrói quase todas as suas construções: casas, igrejas, castelo, cerca defensiva, passando pelo empedrado das ruas estreitas, aqui e ali rasgadas na rocha, em permanente desnível. Toda a povoação se encontra rodeada de uma duradoura muralha medieval (século XIII) e a malha urbana adapta-se maravilhosamente à irregularidade e a inclinação do relevo.

Na época manuelina e no século XVII ainda foram introduzidas algumas alterações, mas Sortelha já havia perdido a sua importância estratégica e militar e o burgo cristalizou no tempo.

Origem da toponímia- Sortelha, é um gigante anel de pedra?

Desconhece-se a origem do topónimo, havendo polémica em redor das seguintes hipóteses – escolha o leitor a que mais lhe apraz. Sortilia é a designação já presente no foral de 1298 dada no reinado de Dom Sancho II

Primeira: a denominação deriva de um anel, Sortija ou Sortela.

Este anel poderia ser utilizado num jogo medieval de cavalaria, no qual os cavaleiros tentavam enfiar a sua lança. Segundo Viterbo, linguista, sortel é um anel de pedras com poderes especiais usado por feiticeiras e magos. Terceira: O aglomerado urbano fortificado tem traçado oval, ou seja, um anel quase circular.

Para Marcos Osório, responsável pela arqueologia do Sabugal, o topónimo poderá derivar da palavra medieval “sortícula” pequena parcela agrícola.

Para nós Sortelha, tem um topónimo, que se aproxima de sortilégio e sim é uma sorte existir assim aldeia tão bela.

Breve Historia de Sortelha

A origem de Sortelha é dúbia e perde-se na voragem do tempo. Curiosas são as intrigantes fossetes, provavelmente de origem antropogénicas, na pedra altaneira que suporta o campanário. Serão ao todo cerca de duas dezenas de covinhas, com um diâmetro médio de 16 cm e distribuídos por dois núcleos. Em Monsanto encontramos um conjunto de treze covinhas semelhantes.

Podemos ter três explicações para estas covinhas:

1- Serem naturais, que têm a designação sugestiva de pias na geomorfologia granítica.

2-Pias que serviriam para moer cereais e armazena-los temporariamente.

3- Pias para atos religiosos pagãos em religiões pré-cristãs. Também a Cabeça de Velha, belo monólito ciclópico e as “Pedras do Beijo” poderão ser espaços litolátricos.

 Na freguesia encontram-se vários vestígios das idades do Bronze e do Ferro bem como materiais romanos. A peça mais conhecida é a ara romana dedicada a Vordio Talaconio-uma divindade, teónimo de Sortelha, consagrada por um M(arcus) C(ornelius) O(?) ou M(arcus) C(aecilius) O(ptatus) (Osório, 1999) descoberta no muro da Igreja da Nossa Senhora das Neves. Em 1181 o Rei Dom Sancho I, povoou o espaço e em 1228, o seu neto, Dom Sancho II, dá-lhe o primeiro foral que é reconfirmado pelo rei Lavrador, mas a sua obra mais importante foi o castelo. Dom Sancho II promove a construção do castelo de Sortelha, imprescindível não só para a defesa da Vila, mas sobretudo para defender a fronteira com Castela, que se situava no rio Côa.

Com a assinatura do tratado de Alcanices em 1297, passaram para o domínio português os castelos do Sabugal, Vilar Maior, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Almeida e a localidade de San Felice de los Galegos – na zona de Riba Côa – além de Olivença, Ouguela e Campo Maior.

Sortelha 4

O rei D. Dinis, de acordo com o estabelecido nesse tratado, desistia da posse de Aiamonte, Esparregal, Valência e Aracena. A conjuntura interna espanhola (nomeadamente as divergências profundas dos tutores do rei castelhano) refletiu-se neste tratado, bem como a visão estratégica do monarca português. O rei dom Dinis promove então a reconstrução do castelo e a construção da muralha que cerca o burgo.

Sortelha perde então parte da sua importância estratégica já que passa a estar a 50 km da nova fronteira. É no tempo do rei Dom Manuel I que é renovado a carta de foral e beneficiado o Castelo, é edificado pelourinho, a antiga  casa da Câmara onde existiu no piso térreo uma prisão.

Cabeça da Velha

Dom João III, eleva a vila medieval a condado em favor de Luís da Silveira, Guarda-mor do Rei e o condado é extinto em 1617 ainda no reinado deste Rei. O influente Luís da Silveira caído em desgraça retira-se para a vila de Góis. Os mais importantes monumentos de Góis tiveram o seu mecenato, a bela ponte, a capela do Castelo (ermida da nossa senhora da Assunção) e a remodelação quinhentista da igreja matriz; é nesta que repousa o seu corpo na num notável túmulo da renascença (*), talvez da lavra do génio de Filipe Hodarte, embora sem a genialidade proto-barroca da genial Última Ceia, exposta no Museu Machado de Castro, em Coimbra. O primeiro conde de Sortelha, Luís da Silveira foi guarda-mor de Dom João III, mas também poeta do Cancioneiro Geral.

Ainda no tempo do rei dom João III, dá-se a transferência e construção intra-muros da igreja matriz, sob a invocação da Nossa Senhora das Neves substituindo antiga igreja matriz de São João, situada extra-muros.

Castelo românico de Sortelha

Castelo românico de Sortelha

A muralha e o castelo voltaram a ser reconstruídos durante a Guerra da restauração. Com a passagem das tropas de Napoleão, parte delas ruiu em sequência de algumas escaramuças aqui travadas.

Em 1855 o Concelho foi extinto, passando para a vila do Sabugal.

Em 1910 o seu Castelo é considerado Monumento Nacional. Em 1994, depois de esquecida e quase moribunda, foi considerada Aldeia Histórica e depois recuperada ao abrigo daquele programa.

O Castelo de Sortelha é Monumento Nacional (*)

Quando em Portugal, queremos referenciar um dos paradigmas de vila medieval fortificada, de imediato nos assola Sortelha. Poderá ter sido a volta do seu Castelo, que cresceu o povoado que se protegeu com uma cerca e algumas torres que, nalguns casos, protegem entradas flanqueando-as.

Instalado sobre um magnífico morro granítico, foi mandado construir por Dom Sancho I, no início do século XIII como resposta estratégica ao estabelecimento por Afonso XI de leão de uma estrutura miliar defensiva no Sabugal, na margem direita do Côa. É um dos mais puros castelos românicos portugueses.

Acede-se ao seu recinto interior através de uma porta fortemente protegida por um belo balcão de matacães (Varanda de Pilatos ou do Juiz, na designação popular), por onde se lançava o que era possível sobre os assaltantes, inclusive com disparo vertical de velas. Também foi adaptado para o uso de armas de fogo, as troneiras.  No interior, deste típico castelo roqueiro tudo é didatismo medievo: a pura Cisterna, a inacessível Torre de Menagem isolada das muralhas, com entrada elevada, as seteiras, a porta falsa, o afeiçoamento das muralhas aos barrocos ciclópicos… Apenas nos século seguinte se constrói a cerca da vila, com os moradores a alijarem-se dentro dela.

O eixo principal é a rua da Fonte, que começa no largo do Curro (onde se faziam touradas a vara) e que continuando depois pela rua Direita, une a Porta Nascente a Porta Nova virada para a Serra da Estrela.

O largo do Curro é um belo largo, com o seu enorme lodão. Acede-se a ele pela Porta da Vila, com arco quebrado e arestas biseladas. Destaque para o notável conjunto de pedras sigladas. Em redor está um conjunto muito bonito de habitações.

Contrariamente ao que o nome indica, das 3 portas, esta é a mais antiga. Possui na ombreia gravadas duas antigas medidas praticadas nos mercados e feiras: o côvado (66cm) e a vara (110cm). Era nas imediações desta porta que decorria mercado medieval como se atesta pelas várias pias artificias construídas para serventia comercial e por onde segue uma bem conservada calçada medieval. No exterior desta entrada distendem-se vestígios de antigos monumentos desmantelados (Igreja de São João da Cruz, Hospital da Misericórdia). Outros imóveis de valor são: o pelourinho com esfera armilar, a Casa da Câmara e a igreja matriz (com teto mudéjar) que estruturam um povoado com pequenos largos ao longo da rua axial referida. A paisagem então é um deslumbramento comovente: granítica, selvática, rude…distante. A beleza de Sortelha é muita, nos seus singelos edifícios graníticos, no seu castelo pequeno, esbelto e incorrompido, na miríade de pormenores aos sentidos e as vistas abrangentes de formas empolgantes. Esta Aldeia Histórica de Portugal é um estímulo a contemplação e meditação.

Sortelha

Texto de Júlio Gil, retirado do livro “As Mais Belas Vilas e Aldeias de Portugal”-Editorial Verbo

“Ao redor a pedra granítica domina a paisagem, dando pouco lugar a limitadas manchas de centeio e pequenos soutos apertados por barrocos. Lá para baixo os, os verdes do vale estreito. Sobre uma escarpa vertical, dominador, romântico, o castelo. Aqui não há grandes casas- mesmo as brasonadas são de dimensão modesta e tocante simplicidade, perfeitamente integradas num conjunto de excecional valor decorativo devido ao indiscutível valor desta gente. Em cada momento se encontram motivos de graça e espírito –  uma porta, uma pequena escada, um brasão, um altar, o Pelourinho…Da praça entramos diretamente no castelo, numa sequência de identidades que não permite entender-se quem inspirou a quem, tal a harmónica integração de formas.

À beira do Pelourinho- com um arco no capitel, relacionado talvez com o topónimo Sortelha, que significaria “anel”-ergue-se um sino sobre o beirado da Junta de Freguesia, velha casa da Câmara, deliciosa e sóbria arquitectura de reduzidas dimensões, parapeito lajeado na varanda de entrada, lojas semienterradas, miúdas vidraças nas janelas de guilhotina. Domina o encantador largo para o qual também se volta outra antiga fachada de idêntico carácter. A austeridade arquitectural da igreja matriz contrasta com o seu precioso tecto múdejar e mais com o decorativismo barroco do altar-mor. Se tudo na povoação é espantosamente sóbrio e severo, acrescentando ainda por mais sobriedade e severidades neste cerco de fragas mulltiformes – onde nem faltam perfis que estimulam a identificações, caprichos graníticos -, tudo é também paradoxalmente terno, acolhedor, lírico”.1

sortelha4

Texto de José Saramago- Viagem a Portugal – Editorial Caminho, 1981 “De Belmonte (**) vai o viajante a Sortelha por estradas que não são boas e paisagens que são de admirar. Entrar em Sortelha é entrar na Idade Média, e quando isto o viajante declara não é naquele sentido que o faria dizer o mesmo entrando, por exemplo, na Igreja de Belmonte (2), donde vem. O que dá carácter medieval a este aglomerado é a enormidade das muralhas que o rodeiam. A espessura delas, e também a dureza da calçada, as ruas íngremes, e, empoleirada sobre pedras gigantescas, a cidadela, último refúgio de sitiados, derradeira e talvez inútil esperança. Se alguém venceu as ciclópicas muralhas de fora, não há-de ter sido rendido por este castelinho que parece de brincar”.

Sortelha campanario

Texto de Alexandre Herculano-Apontamento de Viagem, 28 de Agosto de 1853- Círculo de Leitores. “Visita à vila contida dentro da cerca. Calçada que sobe por entre ela do arrabalde: à direita rochedos enormes sobrepostos uns aos outros; à esquerda despenhadeiros para um valeiro profundíssimo, entra-se a porta da cerca: à esquerda fica o castelo edificado sobre picos de rocha: é um pequeno recinto de forma oblonga: a vila fica em anfiteatro para a direita numa altura superior ao castelo: o muro que a cerca é torreado e vem prender com o do castelo: o agregado de penedias sobrepostas umas à outras em que este assenta é semelhante a um pão de açúcar: tem penedos de mais de três braças de alto. Sobre a porta um balcão com um buraco para lançar matérias inflamáveis, etc. Ficamos no arrabalde: à noite tomo notas. Na ombreira de uma das portas da cerca a medida de vara e côvado”.

Notas

1- Infelizmente a igreja encontra-se fechada ao público. Das várias vezes que estive em Sortelha nunca tive ocasião de visitar o interior do templo.

2- Refere-se à Igreja de Santiago, panteão dos Cabrais (**) Créditos Fotográficos: As fotografias foram amavelmente cedidas pelo excelente site de fotografia: matarbustosfotografias.

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Um comentário Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)

  1. vicente says:

    Aparte del encnato que tiene esa villa, puedos decirles que es donde mejor se come la caldereta de bacalao de todo portugal, en el restaurante que esta a la entrada de la cidudad amurallada.

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