Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)

Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)

A 760 metros de altitude, Sortelha é uma das mais belas aldeias de Portugal.

O granito constrói todas as edificações: casas, igrejas, castelo, cerca defensiva, passando pelo empedrado das ruas estreitas, aqui e ali rasgadas na rocha, em permanente desnível. Toda a povoação se encontra rodeada de uma muralha medieval (século XIV) e a malha urbana adapta-se maravilhosamente à irregularidade e a inclinação do relevo.

Na época manuelina e no século XVII ainda foram introduzidas algumas alterações, mas Sortelha já havia perdido a sua importância estratégica e militar e o burgo cristalizou no tempo.

Origem da toponímia- Sortelha

Desconhece-se a origem do topónimo, havendo polémica em redor das seguintes hipóteses . Sortilia é a designação já presente no foral de 1228 dada no reinado de Dom Sancho II.

A denominação deriva de um anel, Sortija ou Sortela. Este anel poderia ser utilizado num jogo medieval de cavalaria, no qual os cavaleiros tentavam enfiar a sua lança.

O aglomerado urbano fortificado tem traçado oval, ou seja, um anel quase circular o que lembra uma forma anelada.

A hipótese mais provável do topónimo é a de derivar da palavra medieval “sortícula” que é uma pequena parcela agrícola.

Para nós, Sortelha, tem um topónimo, que se aproxima de sortilégio e sim é uma sorte existir assim aldeia tão bela.

Cronologia de Sortelha

Pré-História

origem de Sortelha é dúbia e perde-se na voragem do tempo. Curiosas são as intrigantes 12 fossetes, provavelmente de origem antropogénicas, no afloramento granítico altaneiro que suporta o campanário. Em Monsanto encontramos um conjunto de treze covinhas semelhantes perto da igreja de são Miguel.

Podemos ter três explicações para estas covinhas:

1- Serem naturais, e têm a designação sugestiva de “pias” na geomorfologia granítica.

2-Pias que serviriam para moer cereais e armazena-los temporariamente.

3- Pias usadas para atos religiosos pagãos em religiões pré-cristãs. A estrutura insólita da Cabeça de Velha, belo monólito ciclópico e as “Pedras do Beijo” poderão também terem sido usadas como espaços litolátricos.

Romano

Na freguesia encontram-se vários vestígios das idades do Bronze e do Ferro bem como materiais romanos, mas nada se encontrou neste alto de Sortelha. A peça mais conhecida é a ara romana dedicada a Vordio Talaconio-uma divindade, teónimo de Sortelha, consagrada por um M(arcus) C(ornelius) O(?) ou M(arcus) C(aecilius) O(ptatus) (Osório, 1999) descoberta no muro da Igreja da Nossa Senhora das Neves.

Sortelha na Idade Média

-dom Sancho I, mandou povoar o local.

– dom Sancho II, concede em 1228 o seu primeiro foral.

-O castelo roqueiro o castelo de Sortelha, é imprescindível não só para a defesa da povoação, mas sobretudo para defender a fronteira com Leão e Castela, que se situava no rio Côa.

Sortelha e o rei dom Dinis

O rei dom Dinis, manda reconstruir ou mesmo construir a cerca e o castelo em 1285.

Por labor do rei dom Dinis e dos seus validos, deu-se a assinatura do tratado de Alcanices em setembro de 1297 e passaram para o domínio português o território do Riba Côa (área compreendida a leste do rio douro até ao rio Douro a norte a à serra das Mesas e da Malcata a norte), os castelos do Sabugal, Vilar Maior, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Almeida e a localidade de San Felice de los Galegos –No Alentejo ficaram anexados a Portugal, por exemplo, Olivença, Ouguela e Campo Maior. De acordo com o estabelecido nesse tratado, o rei desistia da posse de Aiamonte, Esparregal, Valência e Aracena. A conjuntura interna nos reinos vizinhos (nomeadamente as divergências profundas dos tutores do rei castelhano) refletiu-se neste tratado, bem como a visão estratégica do monarca português. O rei dom Dinis promove então a reconstrução do castelo e a construção da muralha que cerca o burgo.

Em 1306 o rei dom Dinis, concede carta de Feira. Apesar desta concessão, Sortelha perde parte da sua importância estratégica já que passa a estar muito mais distante da nova fronteira.

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Sortelha 4

Com o rei Dom Manuel I é renovado a carta de foral em 1510 e é beneficiado o Castelo, edificado o pelourinho e a casa da Câmara com prisão no piso térreo u. Estas marcas estão bem presentes em Sortelha, com os brasões no castelo, na casa da câmara e fachada da igreja matriz, com a esfera armilar e o escudo português.

Dom João III, eleva a vila medieval a condado em favor de Luís da Silveira, poeta (registado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende), Guarda-mor do rei dom Manuel e dom João III, Vedor mor das obras publicas, negociador com Carlos V no casamento deste com a infanta dona Isabel. Quando regressa da incumbência matrimonial recebe o condado de Sortelha em 1531. O influente Luís da Silveira, talvez entristecido, retira-se da corte e refugia-se em Góis. Os mais importantes monumentos de Góis tiveram o seu mecenato, a ponte, a capela do Castelo (ermida da nossa senhora da Assunção) e a remodelação quinhentista da igreja matriz; é nesta que repousa o seu corpo na num notável túmulo da renascença (*). O condado de Sortelha foi extinto em 1617.

Cabeça da Velha

A muralha e o castelo voltaram a ser reconstruídos durante a Guerra da restauração. Com a passagem das tropas de Napoleão, parte delas ruiu em sequência de algumas escaramuças aqui travadas.

Em 1855 o Concelho foi extinto, sendo inserido no Sabugal.

Em 1910 o seu Castelo é considerado Monumento Nacional. Em 1994, depois de esquecida e quase moribunda, foi considerada Aldeia Histórica e depois recuperada ao abrigo daquele programa.

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Castelo românico de Sortelha

O Castelo de Sortelha

Quando em Portugal, queremos referenciar um dos paradigmas de vila medieval fortificada, de imediato nos assola Sortelha. Foi a volta do seu Castelo, que cresceu o povoado que se protegeu com uma cerca e algumas torres como a do Facho.

Instalado sobre um magnífico morro granítico, foi mandado fazer no início do século XIII como resposta estratégica ao estabelecimento de uma estrutura militar defensiva no Sabugal, na margem direita do Côa. É um dos mais puros castelos românicos portugueses.

Acede-se ao seu recinto interior através de uma porta fortemente protegida por um belo balcão de matacães (Varanda de Pilatos ou do Juiz, na designação popular), por onde se lançava o que era possível sobre os assaltantes, inclusive com disparo vertical. Também foi adaptado para o uso de armas de fogo no século XVI com as troneiras.  No interior, deste típico castelo roqueiro tudo é didatismo medievo: a pura Cisterna, a inacessível Torre de Menagem isolada das muralhas, com entrada elevada, as seteiras, a porta falsa, o afeiçoamento das muralhas aos barrocos ciclópico. No século seguinte constrói-se a cerca da vila, com os moradores a alijarem-se dentro dela.

O eixo principal é a rua da Fonte, que começa no largo do Curro (onde se faziam touradas a vara) e que continuando depois pela rua Direita, une a Porta Nascente a Porta Nova virada para a Serra da Estrela.

O largo do Curro é um belo largo, com o seu enorme lodão. Acede-se a ele pela Porta da Vila, com arco quebrado e arestas biseladas. Destaque para o notável conjunto de pedras sigladas. Em redor está um conjunto muito bonito de habitações.

A Porta Nova, situada a oeste

Contrariamente ao que o nome indica, das 3 portas, esta é a mais antiga. Possui na ombreia gravadas duas antigas medidas praticadas nos mercados e feiras: o côvado (66 cm) e a vara (110 cm). Era nas imediações desta porta que decorria mercado medieval como se atesta pelas várias pias artificias construídas para serventia comercial e por onde segue uma bem conservada calçada medieval. No exterior desta entrada distendem-se vestígios de antigos monumentos desmantelados (Igreja da Misericórdia, Hospital da Misericórdia).

Outros imóveis de valor são: o pelourinho com esfera armilar, a Casa da Câmara e a igreja matriz (com teto mudéjar) que estruturam um povoado com pequenos largos ao longo da rua Direita ou Direta. A paisagem então é comovente, granítica, selvática, rude…distante. A beleza de Sortelha é muita, nos seus singelos edifícios graníticos, no seu castelo pequeno, esbelto e incorrompido, na miríade de pormenores aos sentidos e as vistas abrangentes de formas empolgantes. Esta Aldeia Histórica de Portugal é um estímulo a contemplação e meditação.

Sortelha

O Casteleiro e a lenda do beijo eterno de Sortelha

Bela é a lenda de Sortelha e que envolve as “Pedras do Beijo”, a aldeia do Casteleiro e acrescento que a feiticeira bem que pode ser a Cabeça da Velha cristalizada. As lendas são histórias que contam as verdades escondidas e aqui relacionam-se com as sanguinárias guerras da reconquista cristã e respetivos cercos e amores proibidos- “A Paixão Negra”.

Link para ler a lenda.

 

Texto de Júlio Gil, retirado do livro “As Mais Belas Vilas e Aldeias de Portugal”-Editorial Verbo

“Ao redor a pedra granítica domina a paisagem, dando pouco lugar a limitadas manchas de centeio e pequenos soutos apertados por barrocos. Lá para baixo os, os verdes do vale estreito. Sobre uma escarpa vertical, dominador, romântico, o castelo. Aqui não há grandes casas- mesmo as brasonadas são de dimensão modesta e tocante simplicidade, perfeitamente integradas num conjunto de excecional valor decorativo devido ao indiscutível valor desta gente. Em cada momento se encontram motivos de graça e espírito –  uma porta, uma pequena escada, um brasão, um altar, o Pelourinho…Da praça entramos diretamente no castelo, numa sequência de identidades que não permite entender-se quem inspirou a quem, tal a harmónica integração de formas.

À beira do Pelourinho- com um arco no capitel, relacionado talvez com o topónimo Sortelha, que significaria “anel ”-ergue-se um sino sobre o beirado da Junta de Freguesia, velha casa da Câmara, deliciosa e sóbria arquitetura de reduzidas dimensões, parapeito lajeado na varanda de entrada, lojas semienterradas, miúdas vidraças nas janelas de guilhotina. Domina o encantador largo para o qual também se volta outra antiga fachada de idêntico carácter. A austeridade arquitetural da igreja matriz contrasta com o seu precioso teto mudéjar e mais com o decorativismo barroco do altar-mor. Se tudo na povoação é espantosamente sóbrio e severo, acrescentando ainda por mais sobriedade e severidades neste cerco de fragas mulltiformes – onde nem faltam perfis que estimulam a identificações, caprichos graníticos -, tudo é também paradoxalmente terno, acolhedor, lírico”.1

sortelha4

Texto de José Saramago- Viagem a Portugal – Editorial Caminho, 1981 “De Belmonte (**) vai o viajante a Sortelha por estradas que não são boas e paisagens que são de admirar. Entrar em Sortelha é entrar na Idade Média, e quando isto o viajante declara não é naquele sentido que o faria dizer o mesmo entrando, por exemplo, na Igreja de Belmonte (2), donde vem. O que dá carácter medieval a este aglomerado é a enormidade das muralhas que o rodeiam. A espessura delas, e também a dureza da calçada, as ruas íngremes, e, empoleirada sobre pedras gigantescas, a cidadela, último refúgio de sitiados, derradeira e talvez inútil esperança. Se alguém venceu as ciclópicas muralhas de fora, não há-de ter sido rendido por este castelinho que parece de brincar”.

Sortelha campanario

Texto de Alexandre Herculano-Apontamento de Viagem, 28 de Agosto de 1853– Círculo de Leitores. “Visita à vila contida dentro da cerca. Calçada que sobe por entre ela do arrabalde: à direita rochedos enormes sobrepostos uns aos outros; à esquerda despenhadeiros para um valeiro profundíssimo, entra-se a porta da cerca: à esquerda fica o castelo edificado sobre picos de rocha: é um pequeno recinto de forma oblonga: a vila fica em anfiteatro para a direita numa altura superior ao castelo: o muro que a cerca é torreado e vem prender com o do castelo: o agregado de penedias sobrepostas umas à outras em que este assenta é semelhante a um pão de açúcar: tem penedos de mais de três braças de alto. Sobre a porta um balcão com um buraco para lançar matérias inflamáveis, etc. Ficamos no arrabalde: à noite tomo notas. Na ombreira de uma das portas da cerca a medida de vara e côvado”.

Referências adicionais:

  • Refere-se à Igreja de Santiago, panteão dos Cabrais (**)
  • Créditos Fotográficos: As fotografias foram amavelmente cedidas pelo excelente site de fotografia: matarbustosfotografias.

3 comentários Aldeia Histórica de Sortelha (Sabugal) (***)

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